A Cláudia Mecânica: American Psycho

 

Há filmes obrigatórios. O American Psycho é certamente um deles. Depois há filmes que nos marcam de tal maneira que os vemos repetidamente ao longo dos anos, mesmo que já os saibamos de cor. O American Psycho é inevitavelmente um deles. É por isso que sinto que estou a por o pé em terreno minado com esta escolha. Escreva o que escrever, hei-de terminar e publicar este texto bastante insatisfeita: mesmo musicalmente falando, há tantas abordagens que lhe poderia fazer… mas aceitei o desafio na mesma. E aceito reclamações.

O filme é da autoria de Mary Harron e adaptado da obra homónima de Bret Easton Ellis (o que me lembra que este filme numa rubrica de adaptações de livros a cinema dava uma dissertação digna de tese académica). Ao carismático Christian Bale coube a difícil tarefa de dar vida a Patrick Bateman, personagem principal e em volta da qual a acção gira. A missão foi superada com sucesso. Acho que mais ninguém conseguia encarnar o meu anti-herói preferido tão bem e imprimir-lhe a aura negra que a personagem requer. Bale adquire na perfeição toda aquela loucura, frustração, obsessão e alienação intrínsecas à personalidade de Bateman, fruto do lugar mau de onde vem e da própria insatisfação face ao mundo superficial em que se movimenta. Afinal, o que importa é criar uma personagem que siga todos os modelos socialmente aceites. O truque está em replicar o comportamento dos outros, permanecer low-profile (que importa se nos confundem com outra pessoa a toda a hora porque vestimos a mesma coisa e frequentamos os mesmos sítios) para que a fachada que protege os nossos segredos e vidas duplas não caia. Manter os segredos imaculados. Faz parte do jogo. Proteger e esconder.

O caso do Bateman vai longe demais. É um empresário de sucesso em Wall Street durante o dia. No tempo que lhe resta é serial killer, com verdadeiros requintes de malvadez. Tem uma obsessão enorme com a imagem e a aparência, não só a sua mas dos que o rodeiam também. Movimenta-se num mundo de gente oca e extremamente desinteressante e o filme foca-se em acompanhar a crescente demência da personagem principal, cuja sede por infligir dor vai crescendo exponencialmente até sair do controlo.

Ah pois é, devia falar de música!

A banda sonora é da responsabilidade de John Cale, nome que dito assim pode não dizer grande coisa, mas se eu referir que é um dos membros fundadores dos Velvet Underground é capaz de fazer tocar mais campainhas. O próprio compôs alguns temas e os restantes foi buscá-los a grandes nomes como David Bowie ou New Order, grandes nomes dos 80s, época na qual o filme se passa.

Não se pode dizer que seja a banda sonora mais marcante de todo o sempre, mas tem apontamentos tão interessantes que tinha mesmo de deixar uma semana para falar sobre este filme. E tem factos curiosos também. Por exemplo, a certa altura ouve-se uma versão orquestrada da “Greatest Love of All” porque a própria da Whitney Houston se recusou a ceder a música para o filme (que moral que tu tiveste, tendo em conta a demência em que decidiste tornar o resto da tua vida, minha cara). Outros foram os Huey Lewis and the News, que já com as bandas sonoras prontas a lançar no mercado, mandaram retirar a “Hip To Be Square” dos cds, dado o carácter violento da cena em que a dita faixa aparece.

http://www.youtube.com/watch?v=qwicLgOGJOI

Aqui está ela. O Bateman atrai Paul Allen até si, aproveitando-se de uma altura em que este o confundiu com outro colega qualquer. Cego de inveja motivada por uma série de conquistas pessoais e profissionais que Allen atingiu, convida-o para jantar, embebeda-o, leva-o para tomar outro copo em sua casa e, possuído pelo ódio, mata-o com a maior frieza possível, depois de lhe explicar uma série de factos sobre Huey Lewis and The News. Alguém já não voltou a reservar mesa no Dorsia.

Se há coisa que aprecio neste Bateman é o preciosismo com que faz e diz as coisas, algo que até acaba por falhar um pouco no filme quando comparado com as páginas e páginas de descritivos que livro nos dá, onde conseguimos visualizar com clareza esta personagem e envolvermo-nos de tal forma que é como se o tivessemos conhecido a vida toda. É que as coisas que gosto mais são mesmo os momentos que ele tem consigo mesmo, e os monólogos que constrói e que mexem em feridas mal saradas. Acho que inevitavelmente nos acabamos por ligar a ele: cada um de nós tem um bocadinho de Bateman dentro de si. Como diria o Dexter: todos temos um dark side. Ou um dark passenger. Nuns é mais nítido que noutros, porque está mais desperto ou porque é mais forte, mas todos temos.

Voltando aos monólogos, logo no início do filme entramos num dos seus momentos a solo, onde lhe conhecemos o apartamento brutal e toda a rotina com que começa o dia, com toda uma parafernália de cremes e exercícios necessários para lhe deixar a imagem a roçar a perfeição. A acompanhar a sua explicação, entra o piano de John Cale numa pequena, mas bonita passagem que compôs para o filme. Há mais, mas esta é a minha preferida:

Na verdade, não tenho imensa música para vos dar hoje. Mas não resisto a partilhar mais duas. Uma porque é obrigatória. A outra porque sim. Começando pela do porque sim:

Do já falecido Robert Palmer sai “Simply Irresistable” do disco Heavy Nova, que saiu em 88. Se anteriormente falei em grandes artistas da década, agora tenho de ir buscar alguma da melhor azeiteirice que a década de oitenta viu nascer. A faixa aparece enquanto o Bateman e a sua espécie de namorada e wannabe noiva vão a caminho de um jantar. Enquanto ela vai idealizando o que deveriam fazer para se casar, ele vai ouvindo esta cassete, a nova do Palmer como diz, numa de quem não quer mesmo saber. Quem é que quereria face a companhia tão desprovida de interesse?

E agora a obrigatória:

Páginas de devoção a Genesis reduzidas a uma pequena passagem de poucos minutos onde Bateman, que aqui assumiu a identidade de Paul Allen, explica a duas prostitutas que contratou o seu gosto por Genesis. No entanto, a chave está lá: a minúcia com que descreve o que gosta e o que não gosta e aquilo que retira de cada música. Como pano de fundo põe a tocar “In Too Deep”, tirada do álbum onde ele considera que a banda atingiu outro nível de profissionalismo (Invisible Touch). Ao detalhe, explica tanto o disco com a música: temáticas, composições, contexto. Tudo isto para terminar introduzindo Phil Collins a solo que, como explica, não funciona tão bem por ser mais comercial. No entanto, é um grande artista. E com isto dirige-se à aparelhagem e põe a tocar a sua personal favorite: “Sussudio”.

Esta é a minha sugestão desta semana. Se não viram o American Psycho, façam um favor a vocês mesmos. Quem vos avisa…

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