12 de Março

Depois de ver o debate do Prós e Contras, não pude deixar de vir aqui falar neste assunto que nos diz respeito a todos.

Está marcada a tal manifestação para o dia 12 de Março. E se me é permitido fazer uma estatística dentro do debate, consegui concluir que, daqueles que intervieram da parte do público, dominou uma ausência total sobre aquilo que irá ser a manifestação. Comparar Portugal à situação do Magrebe e Médio Oriente? Ridiculo. Parece que, mais do que uma manifestação de princípios, é uma manifestação hype. “Vamos lá manifestar-nos que o grupo do facebook já tem não sei quantos mil seguidores”

Há algo que tenho dito e que hoje salientaram no debate e muito bem. Não vai ser com uma manifestação que se vai resolver o problema mais premente da nossa sociedade, que é o desemprego. Portugal andou anos a qualificar pessoas para postos de trabalho que não existem, nem tão cedo irão existir. Portugal não vai conseguir escoar tanta mão de obra qualificada. Daí resultam duas soluções: ou arriscamos e criamos o nosso próprio emprego nessa àrea, ou então temos que mudar de país. A imigração não pode sempre ser vista como um bicho mau ou como Portugal é exímio em “expulsar” as suas mentes mais criativas. A verdade é que não temos mercado para tantos designers, arquitetos, professores, advogados, etc. Há que chegar a algum senso de modéstia e não atribuir sempre a culpa aos outros, como tanto vi pessoas do público dizer no debate. A culpa também é nossa.

A verdade é que andamos anos a iludir-nos e a ser iludidos. “Uma licenciatura, seja ela qual for e onde for, é meio caminho andado para um bom emprego”. Eu fiz parte dessa ilusão também. Quando cheguei à conclusão de que não iria ser bom naquilo em que me estava a formar, e que não era de todo a minha vocação, desisti da licenciatura. Trabalhei um pouco por todo esse pântano do trabalho precário desde então, e sofri na pele esta situação com que nos tentamos debelar hoje. Recibos verdes, contratos a termo, you name it. Não podia pedir mais em termos de trabalho, porque na realidade não tinha formação em nada específico. Tinha que de alguma forma tentar encontrar a minha própria saída antes que esta situação tomasse conta de mim, e quando desse por ela estaria a fazer parte daquele sistema contra o qual sempre lutei.

Falou-se de outra coisa, sobre nós próprios criarmos uma hierarquia de empregos, onde há aqueles que nos denigrem e os outros que nos prestigiam. E por isso fomos para a Universidade – para não ser trolhas, pedreiros, padeiros ou talhantes. Porque na nossa concepção, e naquilo que por muitos dos nossos pais nos foi transmitido, são trabalhos menores. E a verdade é que estes já são trabalhos melhor remunerados do que muitas licenciaturas que para aí andam. A sociedade precisa de vários tipos de mão de obra, e não podemos ser todos doutores ou engenheiros, até porque as fundações de uma sociedade começam em trabalhos do sector primário. O que quero com isto dizer? Que deviamos ir todos chapar massa ou ladrilhar passeios? Não. Mas que não nos iludamos a pensar que qualquer curso em qualquer universidade nos vai colocar no mercado de trabalho mais rápido que um canalizador, ou que iremos ter melhor qualidade de vida que um pedreiro.

Há solução para isto? Eu acho que há muito pouco a fazer. Podemos melhorar as condições de precariedade, tentar acabar com o tormento dos estágios não remunerados e dos recibos verdes. Mas isso porventura ainda irá criar mais desemprego, e de certeza que não irá criar mais emprego. Há também entre os portugueses, principalmente no sector terciário, uma enorme dificuldade em perceber o conceito de risco – qualquer coisa é razão para não se levar um projeto para a frente. Será que está tudo nos encargos fiscais que começar uma empresa representa? Há de facto àreas onde o risco é extremamente reduzido, a começar pela cultura. E não podemos sempre apontar o dedo aos outros. A culpa também é nossa.

Vocês vão à manifestação? Apontem quais as vossas reivindicações.

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