A Cláudia Mecânica: Control

O Control é um filme sobre um dos músicos que mais admiro, com focus no período compreendido entre a formação da banda que encabeçou e o dia em que decidiu por término à sua vida.

Falo de Ian Curtis, brilhantemente interpretado por Sam Riley, e dos Joy Division, revistos pelos olhos de alguém que lhes foi muito próximo: o exímio Anton Corbijn. Sou enorme fã da banda e do seu malogrado vocalista. Terem-se marcado esta semana 32 anos desde o seu trágico desaparecimento fez-me querer revisitar e falar sobre o Control. E não é só pelo festival de boa música que o filme nos dá, mas também pela pessoa que Curtis parece ter sido e que eu gostaria muito de ter conhecido. O eterno descontentamento que lhe tolda a personalidade e a consequente e natural inadaptação, aliados à sensibilidade fora de série e à forma como canalizava todas estes sentimentos para a música tornam-no numa das personagens mais interessantes de sempre. Como disse uma vez, tenho a certeza que teríamos sido amigos.

Para trás deixou um legado que, apesar de curto, será lembrado para sempre.

Mas voltando ao filme, desta vez quase que faço batota por escolher algo já de si tão musical. Mas a verdade é que é capaz de ter uma das sequências que mais me perturbou nos vários filmes que já vi e nunca iria ficar bem de consciência se durante a rubrica não a referisse. Curiosamente, é o culminar da espiral depressiva em que Ian Curtis mergulhou. Com o casamento arruinado, decide voltar a casa para pedir outra oportunidade à mulher, Deborah, que, magoada e naturalmente incapaz de o perdoar (também, por outro lado, nunca foi capaz de o compreender…), lhe diz que não e acaba ela na rua. Entra o The Idiot de Iggy Pop, álbum escolhido para acompanhar Curtis, sozinho, abandonado, numa sequência brutal de whisky, que culmina em mais um ataque de epilepsia.

http://www.youtube.com/watch?v=1LDbxOFWZyg

Acorda de manhã, perdido, desesperado. Decidido, avança para o estendal da roupa, onde se enforca. Nas cenas finais vemos Deborah regressar e abrir a porta. À medida que a câmara se afasta, conseguimos imaginá-la a atravessar a casa, a chegar à cozinha e a deparar-se com o corpo do marido pendurado. É então que começam a ecoar os seus gritos de horror, ao som de uma das mais maravilhosas obras por ele idealizadas..

A Atmosphere é, de longe, a minha música preferida de Joy Division. A forma como se complementa com a cena em que nos despedimos da alma perdida que a escreveu é destruidora. A palavra a ser passada aos restantes membros da banda. A tristeza em Annik, aquela que lhe conseguiu chegar mais perto. Todos os rituais finais. Mais um dos grandes que se perdeu. E mesmo sem o termos conhecido, pensamentos desconfortáveis vão tomando conta do nosso corpo.

Voltando acima e pegando na breve descrição a Curtis, uma das cenas mais deliciosas e representativas do que escrevi é aquela onde vemos o Curtis a sair de casa, acender um cigarro e descer pela rua em direcção ao centro de emprego, ao som da No Love Lost (editada no primeiro EP da banda). O que é que isto tem de especial? O casaco que traz vestido. Com Hate estampado nas costas. E não é como se estivesse a dar uma exibicionista, que ele não aparenta ter sido assim. Ao invés, é um sintoma da revolta e prisão em que vivia, por tentar respeitar as normas sociais to fit in.

http://www.youtube.com/watch?v=cRpY_wcNcMQ

Outra passagem curiosa é o nascimento da She’s Lost Control, que marca um ponto de viragem na trama. Curtis aqui já sabe que tem epilepsia e está visivelmente com medo, ainda mais deprimido e fechado. O fosso entre ele e a mulher é cada vez mais evidente. Como se já não bastasse, sabe de um caso de alguém que acompanhava que morre da mesma doença. É nesta consequência que a música surge. De seguida vemos a banda em estúdio, a gravá-la com um spray junto ao microfone, e poucos minutos depois saltamos para um concerto onde a mesma está a ser tocada. Nesse instante surge Debbie na fase final da gravidez e mais um sintoma da alienação deste Curtis desligado do mundo: afinal, nem o próprio agente sabia.

Infelizmente o tempo escasseia, mas não queria terminar de falar da banda sonora do Control sem referir que o Corbijn fez questão que todas as músicas que surgissem no filme como sendo em actuações ou aparições na televisão fossem tocadas pelos próprios actores. Um destes casos é mesmo o da cena da She’s Lost Control. E todos os intervenientes merecem destaque, principalmente Sam Riley que consegue ter um timbre muito semelhante ao de Ian Curtis.

E é com um exemplo disto que me despeço hoje. Transmission interpretada pelos actores que dão vida aos Joy Division. E nem precisamos de fechar os olhos para imaginar que são eles mesmos, já que as semelhanças físicas também são notáveis.

Comentários

Comentar
  1. Cláudio Torres

    Sou um grande admirador da obra dos Joy Division, mas o filme ajudou a tornar-me ainda mais fã do próprio Ian Curtis.

    Para mim, um dos principais méritos do Anton Corbijn, é de contextualizar a obra de uma maneira que permite ao espectador criar uma grande afinidade emocional com o Ian Curtis.

    O momento mais marcante para mim é o da canção “She’s Lost Control”. Porque caracteriza o “ponto sem retorno” em que cai o ser humano. O nedo do descontrolo, mesmo antes da doença atacar. Descontrolado, porque nada podia travar os seus problemas. Porque os fármacos o minavam, as noites não ajudavam, a carreira fugia assim como a boa relação familiar. Um ciclo infernal que o levava a cometer erros atrás de erros e que acabaria por só terminar no abismo.

    Muito obrigado pela recordação, e parabéns pelo texto!

  2. jorge silva

    Confesso que nunca liguei puto a Joy Division. No secundário, os fãs de Joy Division eram uns espécimes que mais provavelmente provocariam em mim a vontade de lhes ir às trombas, do que sentar-me e trocarmos ideias musicais.
    Só muito mais recentemente é que, tendo tido a oportunidade de comprar o filme baratinho, resolvi dar a hipótese de descobrir o trabalho do Ian Curtis devido a todos os factores (a poesia, a depressão, o suicídio,…). Talvez por não ser fã, o filme não teve em mim o resultado que vejo a ter nas outras pessoas! Nunca me consegui descolar da merda da atitude dele para com a mulher que, para mim, nenhuma alienação ou sensibilidade era capaz de explicar.
    Resultado: devido ao tal factor de que às vezes mais vale não conhecermos a vida deste ou daquele artista, acabei por continuar a passar ao lado da obra dele. Pode ser que deixando passar mais uns vinte anos, outra vez, veja as coisas de outra maneira (ou não)!
    Em relação ao filme – gostei da fotografia, apesar de por diversas vezes ter achado que era preciso um contraste mais “duro” para acentuar o negro da coisa.