A nossa vida está nas mãos de Tiago Sousa

Vera Marmelo

Como é que um par de mãos desconstrói o ciclo de vida é algo que o próprio Tiago Sousa terá dificuldade em explicar mas a narrativa que envolve o novo e tocante álbum Samsara responde com teoria ao que a prática não explica: “Samsara, para diferentes manifestações da cultura oriental, é o ciclo repetitivo da vida: nascimento, morte e reencarnação; significa um vaguear perpétuo pelos diversos estados de existência.”

São notas que respiram aquilo que o dia-a-dia perdeu: o silêncio. A assumida filosofia oriental inspirada em mergulhadores da espiritualidade como Lao Tse, Chuang Tzu ou Siddharta tem algo de zen mas não só. O espaço entre cada som do piano é preenchido por imagens ao critério da imaginação de cada um que resultam numa emocionante narrativa interior que tanto pode remeter para visões cinematográficas como para a urbanidade e um desejo escapista que se adensa.

Tiago Sousa escreveu uma peça de desafios subliminares. De confronto entre o que há e que pode haver. De questionamento filosófico entre o lugar onde estamos e o sítio para onde vamos, com o propósito de encontrar no vazio verbal que medeia presente e futuro um território necessariamente apátrida mas rico em emoções.

É também um disco de instrumento que exige a concentração de quem toca e quem ouve para que a troca esteja completa. O piano-solo de Tiago Sousa é complexo pela perturbarção e constantemente subjectivo mas tem sempre uma luz interior a guiá-lo.

Que realidade é esta que se coloca entre a “percepção da realidade” e a desconstrução do “fluxo criativo”? O pianista encontrou um porto em que apetece atracar. Onde é que ele fica? Depende da traineira e da corrente de cada um.

Mesa de Mistura

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