À Volta da Meia-Noite (1986), de Bertrand Tavernier

Dexter Gordon é o homem. Mesmo no final dos anos 60, quando grandes músicos como John Coltrane ou Miles Davis foram empurrando os limites do jazz com um exprimentalismo dissonante, Gordon foi encantando outros músicos com os seus velhos hábitos de escola. Superficialmente, o seu estilo é lírico e simples, mas tudo é uma questão de gosto. Muitos músicos podem ser capazes de imitar algum dos seus grandes solos, nota por nota, mas nunca teriam a inspiração para escolher as notas que ele escolheu, tudo por conta própria, para depois reproduzi-las no seu saxofone tenor. Com uma carreira que começou na era do bebop e durou até à sua morte, em 1990, Gordon nunca foi um músico sobre a técnica, mas sobre a elegância, beleza em cada nota que ele tocava.
Em Round Midnight, de Bertrand Tavernier – um pastiche das vidas atribuladas do pianista de jazz Bud Powell e do saxofonista tenor Lester Young – Gordon interpreta Dale Turner, um músico de jazz americano a viver como expatriado em Paris no final da década de 1950. Turner actua regularmente na boate Blue Note. Cansado, afastado da família, um alcoólatra, a música é o seu único consolo num mundo triste de outra forma. Isto é, até que conhece Francis Borler (François Cluzet), um fã que primeiro se torna seu amigo, e depois o leva para debaixo das suas asas.
Uma das coisas mais surpreendentes sobre este filme é que o argumento é, em muitos pontos, como o próprio jazz. A história foi escrita por David Rayfiel e Tavernier, mas foi depois reforçada por improvisações acrescentadas pelos próprios músicos, para dar-lhe uma certa verossimilhança. O ritmo é bastante vagaroso, com uma profundidade de sentimentos reminiscente. Os espectadores terão a sensação de ser parte da audiência no Blue Note em Paris, a relaxar com uma bebida fresca e completa imersão no ambiente, em vez de estar num cinema ou no sofá em casa. O personagem central foi criado como um amálgama de vários músicos de jazz da vida real. A relação entre Dale e Francis foi modelada conforme o relacionamento na vida real entre o pianista de jazz Bud Powell e Francis Paudras, um entusiasta do jazz francês que ajudou Powell. Alguns dos outros aspectos da história vem das histórias de grandes músicos como Lester Young e Charlie Parker, ou do actor e grande músico, Dexter Gordon. Tavernier criou assim um filme que é uma verdadeira fusão de duas grandes tradições artísticas – jazz e cinema.

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