Algures

O fim é um novo começo. É assim em todos os filmes de Sofia Coppola. As irmãs Lisbon saiem da sua prisão através do suicídio; o Bob, com a ajuda de Charlotte, deixa Tóquio preparado para aceitar a sua vida; a Marie Antoinette, apesar de tarde, estava decidida a viver de uma forma mais simples; e agora, no melancólico Somewhere, Johnny Marco, tal como a personagem de Bill Murray em Lost in Translation, deixa para trás o vazio que era sua vida.

A comparação não acontece por acaso, as semelhanças entre ambos os filmes, desde o argumento à estética, são óbvias. Poderá Sofia ter optado, depois do desastre comercial de Antoinette, não sair da sua linha de conforto e repetir a fórmula do trabalho que lhe deu reconhecimento? Mas não, não me interessa compreender os seus objectivos e interpretações embora não possa deixar de confessar uma perversa admiração e aconchego por todo aquele inofensivo ambiente.

Transporta, como ninguém e de forma suave, essa melancolia para a tela. Os longos planos introspectivos que nunca me parecem adulterados, os minúsculos momentos de ressonância visual, a falta de estimulação narrativa (elogio), o simbolismo – desde Gandhi ao eco oposto das cenas inicias e finais, o casting, boas escolhas sonoras…

A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito.

Julgando pelas reacções das pessoas que se sentavam à minha volta, é provável que a generalidade não vá gostar. E são válidas, claro, mas se não encararmos o filme como espectadores de mente aberta, activos e de espírito crítico, a ida ao cinema é tão sem sentido como a vida da personagem.

É um filme minimalista, ao seu próprio jeito, e modernista que abraça o realismo, e/ ou vice-versa, de forma poética. É isso, é um poema. Porque não?

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