Angus Maclise: The Velvet Unknown

O primeiro baterista dos Velvet Underground, Angus Maclise, que deixou a banda assim que o primeiro concerto foi agendado – You mean we start when they tell us to and we have to end when they tell us to? I can’t work that way. – é um dos artistas mais desvalorizados de sempre e merece mais do que essa associação. Para além de percussionista  foi um poeta, compositor, artista visual e reflectia o espírito livre em tudo o que se envolvia.

Angus was one of the greatest drummers of all time and one of the greatest poets of all time.

Foi membro do Theater of Eternal Music de La Monte Young com John Cale, Tony Conrad, Marian Zazeela (não eram raras as vezes que Terry Riley também se juntava), contribuiu para o Fluxus (Yoko Ono também por lá andava), dava-se com Andy Warhol, fundou a sua própria editora com o também poeta Piero Heliczer, inventou o calendário-poema, brincou com super 8… Apesar de ter morrido bastante novo – em Katmandu no Nepal para onde se tinha mudado no final dos sessentas com a sua mulher e onde ficou altamente envolvido com o mistecismo tibetano e budista – foi sempre uma pessoa muito activa. Vítima de hipoglicemia e tuberculose pulmonar, tinha 41 anos.

Ao contrário das suas edições literárias, até ao final do século passado era como o seu lado musical nunca tivesse existido. Foi com a insistência e persuassão de um par de amigos que finalmente se começou a descobrir trabalhos que confirmavam/ ressuscitavam a sua reputação no meio nova-iorquino na década de sessenta. As descobertas mais recentes podem ser a sua pedra de roseta: uma mala cheia de poemas, desenhos, fotografias, notas, rascunhos e 100 (!!!) bobinas de gravações que se encontrava na cave do Senhor Young depois da viúva de Maclise, Hetty, lhe ter emprestado há umas décadas atrás.

A descoberta foi tão importante que uma exposição foi imediatamente planeada e teve lugar, em Maio do ano passado, na galeria Boo-Hooray em Chelsea, Nova Iorque. Uma história escrita é dificilmente uma história revista, mas Dreamweapon: The Art and Life of Angus MacLise (1938-1979) deixou marcas ao ponto de se terem ouvido comentários e lido críticas como This provides a completely different history of the ’60s and ’70s than we’re used to.

He almost never kept a beat. He kept less beat than any drummer I’ve heard before or since. It was astonishing in the inventiveness, the continual renewal that that required.

Nessas tais bobines, recuperadas (ler editadas) e bem pela galeria onde decorreu a exposição, estavam estes dois discos:

Angus Maclise & Tony Conrad & Jack Smith – Dreamweapon I [Boo-Hooray 2011]
Angus Maclise & Tony Conrad – Dreamweapon III [Boo-Hooray 2011]

Limitados a 500 Lps – por aqui ainda mora a incerteza se o III partilhará casa comigo – Dreamweapon I é divido em dois lados com peças de ’64 e ’68. A Les Evening Gowns Damnées não é de todo novidade visto que fez parte de um disco de Jack Smith. Já S.O.S., do outro lado, celebra o melhor destes três mundos entre ragas e drones a partir de um apartamento de Lower East side. Dreamweapon III é mais sujo, sujo como se o pó de décadas tivesse sido planeado para fazer parte da gravação. O transe psicadélico mascarado de “drone” que sai do violino de Conrad (outro mestre!) até que um Angus indignado começa a debitar um dos seus poemas e aí lembrei-me (e de certa forma senti) da primeira vez que li Howl do Ginsberg. Vira-se o LP e temos 3 peças mais curtas nas quais nos apercebemos da sua distintiva sabedoria polirrítmica, o porquê das citações em cima de Young e Conrad. Parece fácil ou ele é que faz parecer fácil?

Para terminar, porque não é fácil encontrá-lo e para que fique sempre à mão de uma pesquisa neste cantinho – e, já agora, porque é tão actual como em 1968, o poema é este:

Shove it up your ass!
But skin me no more, you cocksucker cops!
You creep microscopic, far below me,
in your totally meaningless and insignificant, fascist soullessness!
You have no dream, no destiny, no life, no balls,
no spine, no brain, no heart, no humanity!
And in the face of all this, you hate.
And in the face of all this beauty, you keep on hating.
Listen to me now, all you fucking asshole cop motherfuckers…
Get wise!, because I’m putting a powerful, powerful curse on your cowardly soul.
Get rid of your ridiculous, laughable roles, and kiss the cunt of God.

Descrever este tipo de discos é inútil. Melhor, descrever qualquer disco é inútil, mas se essa tentativa ajuda alguém a descobri-lo tal como outros me ajudam então faço o esforço.
Tendo em conta a sua prolificidade nos sessentas e setentas, e não esquecendo que foi/ é mencionado com regularidade como influência/ inspiração (Coil, por exemplo), a representação em disco é ainda bastante pobre e leva-me a perguntar o que ainda sairá dessas bobines. Quanto a estes discos, mesmo editados em 2011, foram dos meus preferidos deste ano.

Comentários

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  1. Luis

    Um bom ponto de entrada, embora estranho, também pode ser o filme “Invasion of the Thunderbolt Pagoda” de Ira Cohen de 1968. A famosa banda sonora do Maclise é hipnótica (também foi editada em disco separadamente); e pelo filme passam como “actores” toda a cena nova-iorquina à qual Maclise também estava ligado.