Arvo Pärt

Seguindo a tónica de clássico e começando a de ambiente, o trabalho de Arvo Pärt é de longe o que me tem feito mais companhia neste último ano. O reportório deste Estónio é em grande parte centrado em temáticas religiosas, e não é por acaso que a sua música transporta consigo esta religiosidade. Munida de uma quietude e pureza intocáveis, é bem conhecida a história em que doentes em fase terminal com SIDA pediam para ouvir a sua obra Tabula Rasa de 1977 vezes sem conta, após as passagens regulares de uma das enfermeiras como forma de atenuar de alguma forma o impossível.

Um dos meus primeiros contactos com a obra de Pärt foi no ano de 2006, na TV2 numa Curta chamada Phantom Limb de Jay Rosenblatt. São 28 minutos sobre luto e morte, difíceis de tolerar, mas filmados com uma beleza única – apenas possível por alguém que perdeu o irmão quando tinha 7 anos. Imediatamente comprei o DVD e ficou na prateleira desde então, pois não é um filme que seja para rever mas sim para possuir. Quando vi a primeira vez foi este excerto que me chamou a atenção pela música, e não conheço muitas coisas tão triviais (imagem e música) que em conjunto digam tanto. Quando recentemente esta música entrou em loop eterno na minha playlist, de alguma forma tive o presentimento que era a do filme. Confirma-se.

E por fim, algo bastante recente de um outro músico, que tenho acompanhado desde 2007 com o excelente Daydreaming, e que antecipou este tópico ao ver que a edição está praticamente esgotada. Trata-se de Rafael Anton Irisarri, que acabou de lançar um novo EP (apenas em vinyl) e que inclui uma versão do Für Alina de Arvo Pärt. Só já está disponível aqui, por isso os interessados podem encomendar asap.

Muito do que se anda a fazer neste florescente reino de ambient/classical tem muita raíz no trabalho de Pärt (Rafael Irisarri, Ólafur Arnalds etc), mas quem os pode censurar?

Comentários

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  1. Neuroticon

    Arvo Pärt é MUITO bom, mas MUITO bom mesmo!
    Uma obra transcendental e que nos faz sentir a pura beleza da musica…

    O Alina e o Tabula Rasa são dois dos melhores discos de sempre.

  2. supernaut

    esta versão acrescenta qualquer coisa de ravel (aquela densidade negra dum gaspard de la nuit – les gibet, nos dedos da martha argerich).

    acho que a influência do part vai muito além do ambiental/neo clássico – a sua capacidade de criação de dinâmicas minimalistas é inigualável e tornou-se presente em muita da música moderna. falo por mim, pelo menos.