As Artes Inúteis

Artes inúteis é do pior que há. Por se movimentarem nos círculos artísticos, a maioria das pessoas tem alianças a defender, egos que precisam de se alimentar mutuamente, entre outras coisas, que levam a que muita coisa fique por dizer. No meu caso, sou um pouco tipo parasita nestas andanças. Nos meios da literatura, pintura, design e mais algumas coisas, molho o pincel e meto as minhas colheradas, mas não posso dizer que os meus principais amigos estejam nesses meios. O meu diálogo sobre as artes é com livros e revistas, portanto ninguém pode mandar vir comigo de volta, logo há o fenómeno das coisas perfeitamente abjectas, cuja validade devia ser questionada, que eu não consigo compreender. A primeira questão a ser colocada a qualquer objecto cultural devia ser ‘qual é a tua validade?’. Livros que não deviam ser escritos, exposições só para fazer número, quadros cujos autores não sabem o que devem significar para além dos números, é tudo parte do mesmo. E depois, mais grave, é que as pessoas que conhecem essas farsas e as distinguem, não explicam ao público comum que há coisas que são realmente aquilo que parecem, horríveis. Isto não é uma atitude arrogante; a título de exemplo, eu como em qualquer tipo de pratos. Sei o que é um prato bem desenhado, o que é um prato útil ou um pouco prático, no entanto é-me indiferente, porque o que eu quero é comer. Se há pessoas que ficam indecisas, quase embasbacadas pelo exercício que é ler um livro, nesse caso, e pela minha experiência, eu sei dizer o que está bem e está certo. Portanto, acho que devo denunciar, com veneração para os que excedem os limites da arte e com desprezo para os que se limitam a existir.
Dalí dizia que devíamos fazer os museus de bicicleta e parar apenas em frente a um ou dois quadros, e se eu não defendo essa ideias (e sou um perfeito idiota quando comparado com o Dalí), percebo o que ele quer dizer e defendo-o. De Londres sou capaz de escrever praticamente todos os pintores representados nos principais museus públicos, no entanto uma volta comigo por eles vai ter várias menções ao que eu chamo de ‘palha’. A palha nos museus é terrível, não porque não alimente ninguém ali, mas porque é uma desonra para os outros quadros com que ombreia. Atesta a falta de coragem dos curadores em substituírem a palha por um extintor ou algo mais útil. O que se designa por povo, tem dificuldade em filtrar o que uma instituição oferece, já que deposita confiança em demasia naquilo que no fundo são decisões de pessoas iguais a elas. Claro que há uma série de pressupostos que devem ser assimilados, mas quando estão bem coadjuvados com as lições que a história nos deu, qualquer um deve permitir-se a fazer comentários negativos sobre as selecções. Claro que, depois, parte da humildade de cada um, ou do possível humor que usam, em criticar ou ridicularizar as instituições, mas este tipo de diálogo é importante, até porque aprende-se bastante em saber o que está mal.
O melhor de haver tantas coisas más? As boas serem tão boas, tão inálcançáveis.

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