Os Heróis e o Método: Black to Comm e as suas formulações…

Black to Comm é Marc Richter e partindo da conversa que foi possível estabelecermos, cedo me tranquilizou dizendo que não gosta muito de grandes conceitos por detrás da música. Não sei o que ele estaria a pensar, mas é certo que na minha cabeça já imaginava as grandes óperas rock que esticavam os discos para além da resistência do próprio vinil (ou da paciência).

A partida foi feita do disco Alphabet 1968, um trabalho que se vai formando a partir de sucessões de ambientes que podem ser um loop de piano como na música de Max Richter, ou então a perfuração de drones eletrónicos como faz Machinefabriek (Black to Comm tem um split-cd com este último). Marc diz que a música é a história em si, na forma como é gravada, a sequência e o contexto onde habita. Este contexto faz sentido porque alguns destes ambientes por vezes confundem-se com a própria audição/percepção que por vezes fazemos da natureza, da chuva, dos barulhos das fábricas, do vento “encarcerado” em tubos metálicos etc. Ao nível da elaboração de um conceito, a única exceção para Marc são as bandas sonoras. Em 2012 irá lançar EARTH, referente ao filme do realizador de Singapura, Ho Tzu Nyen.

Insistindo ainda na representação da sua música, refere que há no entanto uma “narrativa” que serve de estrutura, determinado tom que mantém juntos elementos muitas vezes desconexos.  Aqui pode ser por exemplo o “casamento” entre a extensão do drone e a inquietação de um instrumento de sopro ou um órgão de igreja. Não se vê porém como E.T.A Hoffmann ou até o Pinocchio, misturando tecnologia ancestral, elementos humanos e “magia” (é fã destes elementos e artistas).

Alphabet 1968 não é um disco fácil, lembra muitas vezes as perversidades sedutoras da francesa Colleen, que peça a peça, som a som, vai arrumando algo grande (seja uma caixa de música, um brinquedo, o toque nas cordas de um violino etc., afinal nos sonhos a mente é livre e crua). Dada alguma dificuldade em colocar rótulos em Black to Comm, pedi a Marc que me listasse 10 discos que definissem a pessoa/projeto:

Microstoria – Init Dig
Workshop – Talent
Sunroof! – Cloudz
39 Clocks – Subnarcotic
Public Image Ltd. – Flowers Of Romance
Terry Riley – A Rainbow In Curved Air
Nurse With Wound – Spiral Insana
Royal Trux – Untitled (1992)
Smog – Wild Love
Mutter – Hauptsache Musik

Tentei também perceber que outras inspirações “perturbam” este músico e chegámos à conclusão que a sua música é feita de tudo, tudo se ouve, tudo permite interpretações, qual cachimbada Freudiana. Marc acha que o seu esforço vai um pouco ao encontro do chamado “Gesamtkunstwerk”, termo atribuído a Richard Wagner que se referia à junção de vários elementos que compunham a obra de arte total como é o caso das óperas (mistura de teatro, canto, dança, música etc.). Confessa-se fã de Shirley Temple, tanto da voz como dos filmes, apesar de ver na sua biografia uma série de elementos que para ele não fazem sentido. Outra obsessão é o Gamelan, som típico da Indonésia e que consiste na exploração de uma série de diferentes xilofones tradicionais, gongos, flautas de bambo etc. O Gamelan consiste na disposição de todos estes elementos formando um só som, uma só entidade como aquela que tenta atingir Black to Comm. Para Marc estes sons são uma forma de expressão da natureza ou a democracia da mesma, retendo um certo amadorismo por parte de quem a toca.  Continua a enumerar influências como a história e o contexto sob o qual cria The Red Krayola. Assume-se obcecado pelos Melvins desde os primórdios (ora quem não é meu caro!), apesar de achar que eles já não estão na melhor forma. Gosta da criação artística de Mike Kelley sobretudo no grupo dos anos 70 Destroy All Monsters. A este respeito Marc mostra-se fora de si por ter tido a oportunidade de colaborar com ele recentemente. Por fim assume ainda que tem como objetivo tornar-se obcecado com cantoras femininas de opera, sim para ele as obsessões podem ser planeadas.

Para além do tempo, dos sons, das influências, resta-nos falar sobre as sensações, o que pretende evocar a música de Black to Comm? Explica que faz por manter as suas músicas “abertas”, rejeita aqueles que o acusam de ter um trabalho que se fica por esboços, nem sempre concreto. O que estas “vozes” não sabem é que a intenção é exatamente essa, Marc pretende dar aos ouvintes a possibilidade de adicionarem as suas próprias dimensões, em vez de ouvirem algo já completamente formulado. Se há um presumível “consumidor”, então que este faça parte do processo de interpretação da sua música.

Termina a nossa conversa da seguinte forma: “As pessoas são inteligentes o suficiente – não precisam que ninguém lhes diga como devem digerir uma peça de arte.” O melhor mesmo é vermos a música de Black to Comm como uma peça num museu de arte, pode-nos ser indiferente, podemos sentir uma provocação mas não lhe vermos um sentido, podemos sentir-nos atraídos de alguma forma, enfim, o melhor é mesmo dar-lhe atenção…

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