Celebração, Bossa Nova e Virtuosismos

Cada regresso meu à Amplificasom é feito de alguma nostalgia – também pelo seu presente – mas por me ancorar sempre a excelentes memórias e sons. Cada regresso meu às palavras atreladas à música, surge como uma inevitabilidade que tenho sérias dúvidas que alguma vez vá desaparecer. A primeira vez que desempenhei algum trabalho a que pudesse considerar de conduta profissional, foi a escrever música e desde essa altura já passaram alguns anos, fazendo-me sempre voltar ao lugar comum de um disco a girar e à caça aos pensamentos que lhe façam justiça.

Quis que o meu regresso também fosse hoje por ser o Aniversário do André, para que pudesse celebrar a nossa amizade que nos enriquece de vitalidade sempre que partilhamos algumas palavras, alguma descoberta musical etc. Uma amizade que resiste ao tempo, e se este mês ambos atingimos os 30 por uma diferença de dias, quem sabe se aos 60 não poderei também escrever um texto como os mesmos intuitos.

Como neste site também se quer música e partilha entre todos aqueles que aqui passam diariamente, irei fazer referência aos sons que me têm feito companhia nos últimos dias.

stone_flower
Com alguma recorrência tenho ouvido o “Stone Flower” do Antônio Carlos Jobim, um trabalho para todas as estações, abraçando o Jazz-samba que amanhece em dias de felicidade.  A bossa-nova tocada maioritariamente em instrumentais que se tornaram perfeitos standards e que outros músicos buscaram também criar/recriar, como Baden Powell, João Gilberto, Stan Getz ou João Donato. Belíssimo.

 

cicatrizes
Para acentuar a minha recorrente paixão pela história musical do Brasil, tem rodado bastante o disco “Cicatrizes” do grupo MPB-4, música dos finais dos anos 60 de um grupo que foi acolhido por referências incontornáveis da sustentabilidade da Bossa Nova como Nara Leão ou Chico Buarque, que ajudaram a que o som dos MPB-4 se fizesse ouvir nas ruas onde ecoava a Ditadura Militar. Aliás Chico Buarque foi durante vários anos aliado do grupo e ouviu várias das suas músicas serem tocadas pelos MPB-4. Em “Cicatrizes” temos desde o Funk, passando pela Folk com palavras em “vários sentidos”, MPB, Bossa Nova, o chamamento pelo psicadelismo que estaria para rebentar, entre outras descobertas… Um disco para ser visitado imensas vezes.

 

distortions
Também na fila da frente no que diz respeito a rodelas têm estado os Blue Phantom com o disco Distortions (1971). Mal arranca levamos logo com um enorme riff de música psicadélica, a partir daí somos desafiados por diversos experimentalismos e instrumentais – sons que inicialmente foram gravados para serem usados como companhia para filmes, rádio ou televisão. Para quem estiver disposto a uma boa dose de variações rítmicas, groove, música psicadélica e progressiva, assim como algumas dissonâncias mais libertárias, então tem aqui uma pérola vinda de Itália. Tem servido de companhia ideal para outro disco que tenho ouvido, nomeadamente Mahavishnu Orchestra – Birds of Fire.

 

vontade
Ainda a merecer destaque, “À vontade” de Baden Powell – e se o disco de Antônio Carlos Jobim é a companhia ideal para o dia que se deita no conforto de uma boa companhia, a música de Baden Powell é o amanhecer perfeito para quem acordou com a companhia certa, nem que essa companhia seja a janela aberta para uma cidade que se ama. Jazz-Samba mais ritmado, lembrando outro disco incontornável do género, Stan Getz & Charlie Byrd – Jazz Samba (1962). Interpretação irrepreensível e virtuosa de temas conhecidos como “Garota de Ipanema”, “Berimbau” ou “Consolação”. Sendo a viola o prolongamento da expressão artística de Powell, é aqui também o instrumento que mais se dobra e redobra em dedilhados e ritmos da Bossa. Aliás quem gosta de abordagens às tradições brasileiras através do virtuosismo mais acústico (das seis cordas), pode procurar nomes como Canhoto da Paraíba ou então Helena Meirelles (esta última para algo mais rural e do interior).

Boa semana para todos e até breve!

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