Colecções


Desta vez queria falar um bocado sobre coisas que gosto de coleccionar. Não colecciono de modo obsessivo nada, e todas as coisas que vou juntando, respondem apenas a um critério, que é o meu gosto. Logo, a título de exemplo, apesar de gostar de coleccionar tábuas de skate da marca Nova-Iorquina Supreme, não compro todos os modelos que lançam, apesar de ter acesso a elas em primeira mão. Seja por algumas terem um preço proibitivo de revenda (quando ultrapassam as £90, deixo-as passar sem qualquer remorso), seja por achar os gráficos maus. As tábuas de skate de colecção mantenho-as no mais perfeito estado que posso, geralmente ainda no plástico, mas por exemplo, os ténis que compro, uso-os praticamente todos. Quer isto demonstrar que não é importante dar demasiada atenção ao que deviam ser prazeres, pois obviamente que para alguém começar colecções de algo que já não está em produção, outra pessoa tem de estar a vender. Logo mais vale aproveitarmos as coisas, pois a história mostra-nos que até as colecções mais preciosas acabam por ser desmanchadas, e o prazer está em juntá-las. Apesar de sempre ter usado a internet, eu cresci como amante do vinyl como turntablist, logo sempre tive interesse pelo lado analógico, pela comunicação, e por aquilo que no caso dos discos se designa como digging, mas que de um modo geral se traduz como ‘faro’.
O faro não consegue ser facilmente explicável, mas há obviamente muita gente a tê-lo, sejam tastemakers da moda que definem o que vai bater certo em próximas tendências, seja pessoas que definam estratégias de marketing que vão ser aplicadas numa empresa para a revitalizar, ou para comprar coisas. No caso das colecções, há várias maneiras de as conseguir amealhar, a mais fácil é obviamente atrás de um computador, com muito dinheiro (que nem chega a ser dinheiro, resume-se a uns números no ecrã), de modo a entregá-lo a pessoas que fazem a revenda, e não aos vendedores oficiais ou às marcas. Eu cresci durante o fenómeno da explosão da streetwear, portanto há uma parte do que vestimos que deixam de ser tecidos e são cultura, são a nossa voz na maneira como nos projectamos aos olhos da pessoa. Claro que com isto surgem muitos pretensiosismos, mas o importante é fazermos o que está bem para connosco, e no meu caso, o que visto diz algo sobre mim da mesma maneira que o tipo de cadeiras que uso em casa diz: quero algo com tradição, bem feito e que não seja descartável, uma marca com cujos princípios eu me identifique e que queira partilhar esse legado, passando a ser o meu.

De qualquer modo, voltando à questão de comprar coisas a partir de outras pessoas, tenho a regra de apenas comprar nesse caso coisas que me saiam mais barato, e dando sempre primazia ao faro de procurar tudo em sítios físicos. Quando tinha 16 anos passei quatro dias em Bruxelas com o propósito de visitar as várias lojas de discos que lá haviam. Há alguns anos em Hong Kong, tinha como missão conseguir comprar quatro vinyl toys que só ali podia arranjar, o que incluiu andar por centros comerciais menos seguros e com pouca iluminação, forrados a caixas de bonecos que afastariam qualquer ocidental pela falta de organização, mas que eram autênticas pérolas que os comerciantes desconheciam o valor que alcançavam a muitos quilómetros dali. No caso concreto dos vinyl toys, infelizmente muitos dos lançamentos hoje em dia são feitos exclusivamente online, e se alguns dos que saem eu adquiro porque os quero mesmo, acho que se perde algo da experiência, e aqueles na minha colecção que vêm com uma história, com um diálogo atrás, com uma busca só para os encontrar, são bastante mais valiosos para mim.

É um bocado como os clubes de futebol que têm as finanças em ordem terem de competir com os que têm donos milionários que pagam as dívidas dos clubes, com a felicidade de coleccionar coisas não ser uma competição. Qualquer pessoa com uma ligação à internet e muito dinheiro pode comprar uma grande colecção de Air Jordans imaculados, uma colecção de tábuas da Powell Peralta, bonecos em bronze do Kaws ou primeiras edições assinadas pelos escritores, mas a experiência, a felicidade de ter algo que significou a nossa passagem por determinado local, não tem preço e o objecto acaba por se tornar uma comodidade em vez de um troféu pessoal. Todas as coisas que pude comprar em viagens pelo mundo fora são muito mais importantes do que aqueles que tenho de comprar pela internet, apenas pelas histórias, pois acabamos todos por desaparecer.
Por fim, a felicidade final é conseguirmos contribuir para a própria cultura de que gostamos. No meu caso, como cresci com o skate, algumas pessoas próximas oferecem-me tábuas (tive a felicidade de me oferecerem duas personalizadas que podem ser vistas na imagem acima), e decidi que com a minha marca queria retribuir com algo, sendo uma tábua de skate algo que sempre sonhei em lançar. Felizmente este ano conseguimos fazer isso, e a quem se interessar em comprar, digam que são deste blog que eu envio uns extras! E quem sabe não possam aí começar a vossa colecção.

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