Considerações Herméticas

Antes de mais, queria pedir desculpa a todos 3 vezes :)
Por não ter escrito na semana passada
Por estar a escrever já no Sábado
e pelo tamanho do texto que escrevi agora.
Eu penso muito em coisas da Hermética porque gosto, e porque me dá um referencial sólido para especulação sobre imensas coisas. Normalmente não as escrevo e qual Adepto tramado, conservo estes segredos cósmicos comigo.
Hoje é diferente.
No outro dia estava a ler umas coisas e deparei-me com este texto (que também se pode consultar online):
“Visto que a matéria e a substância das coisas são indestrutíveis, todas as partes que as compõem estão sujeitas a todas as formas, pelo que o uno e o múltiplo se transformam no múltiplo e no uno, se não num mesmo tempo e num único momento, em vários tempos e momentos, em sequência e em alternância”
Giordano Bruno, La Cena De Le Ceneri
O que Giordano Bruno afirma não é matéria de grande polémica, ou debate científico, apesar dos contornos herméticos do seu discurso.
A matéria é indestrutível de facto (1) pelo que tudo o que existe (materialmente) é passível de ser reorganizado.
Que é como quem diz (penso eu, e com um grande salto de fé metafísico para abreviar), somos literalmente do mesmo material primário que Deus.
Deus (2), numa perspectiva Hermética é um aspecto do Todo, o mesmo Todo do qual comungamos, ainda que tenha sido ele a criar o Tudo.
O Deus da tradição judaico-cristã – que tantos bons alquimistas criou – é um aspecto benéfico/luminoso/positivo/etc., cuja contrapartida será Satã; em conjunto, funcionam como uma espécie de entidade reguladora dos astros que governam, em particular este em que habitamos, não deixando, no entanto de serem finitos ainda que imortais (3), logo e por indução, compostos como nós por uma parte de matéria e outra de espírito.
Não quer isto dizer que tenhamos todos as mesmas quantidades de espírito, ou de matéria, mas ab origine, éramos todos e tudo a mesma coisa, A coisa (4).
Se calhar é por isso que na mitologia cristã, Deus criou a Humanidade à Sua imagem; não possuía outra imagem claro está, sendo a Sua própria um reflexo do tal anekdiegetos. Como um belo fractal que se propagou para uma data de sítios.
O São João, o das sardinhas, mangericos e alhos porros disse:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele”

Afinal nem foi Deus que fez todas as coisas, foi o Verbo (o Logos ou a runa Ansuz). Deus canalizou o Verbo, e assim gerou o som, criando vibração.
Assim, algures no Algures, o Tempo passou a existir e com ele a progressão espacial – não me vou alongar por aqui que existem muitas interpretações bastante interessantes, que podem ser lidas em formato sintético aqui na Wiki.
Creio que foi por aqui que o belo fractal se começou a propagar, i.e., a desagregar-se e que as coisas começaram a andar, literalmente.
O que nos leva à quantidade de espírito e matéria que existem, retomando o atrás mencionado.
Então pensava eu no outro dia que o espírito/alma pode existir a um nível sub-atómico, não em paralelo com a matéria, mas fixa nesta (como pequenas centelhas em esferas de carvão, num tom mais poético).
Tudo o que existe tem uma parte de espírito – ainda não sei de que modo quantitativo, ou qualitativo (ou nenhum destes) se agrega o espírito às partículas (e às anti-partículas, porque não?). Verdade seja dita, neste modelo tudo pode ser real; não passa de uma ilusão tão boa quanto qualquer uma das outras.
Então ainda que aborde mais em detalhe esta questão do espírito, é possível inferir que as partículas sub-atómicas não só contêm esse aspecto do anekdiegetos (o espírito), como conterão todos os demais aspectos.
Existindo uma Unidade orginal, que se dividiu (bastante), em tudo aquilo que nós entendermos como o Tudo, mas que sendo mais do que só Ser, e sem dúvida, muito para além de inesgotável (pois toda ela é Potencial e Realização em simultâneo) e, sendo nós, como tudo o demais, partes dessa Unidade que transcende o binário, compreendemos que as grandes demandas da Humanidade, que sempre foram uma só Grande Demanda têm aqui a resposta.
O Boyd Rice disse, no Paradise of Perfection:

“Few follow it unhesitatingly, without throwing at some time or other a sad glance towards the distant lost paradise towards into which they know, in their deeper consciousness, that they are never to peer; the paradise of perfection in time within so remote that the earliest people of which we know remember it as only a dream.”

As pessoas anseiam por estar com Deus, e Deus, muito possivelmente, anseia por estar com o que quer que O tenha criado à sua imagem.
No fundo é um tipo de ansiedade de separação mais complicado.
Em paralelo pondero sobre o Kali Yuga e tudo faz sentido.

A única maneira de reunir, ou de regressar à Unidade é o Solve et Coagula; como um pestanejar de Brahm em que tudo pára, toda a criação cessa, e tudo regressa à origem.
O caminho para o Kali Yuga é precisamente o da agregação da matéria (5). Como se tivéssemos de reunir todo o mineral necessário para colocar no nosso Athanor da Criação Absoluta, assim, a matéria, ou o Reino da Quantidade (como o Guénon o colocou) devem tender para um ponto de saturação tal que esta se tornará (ou transmutará) no minério misterioso, que sempre existiu e nunca foi criado.
Por vezes sinto um pouco isso nos dias em que vivemos. Tudo me parece deslocar-se cada vez mais rápido e, efectivamente, sinto que convergimos. A tecnologia mandou-nos em flecha para frente e para cima, a um ritmo exponencialmente vertiginoso. Pode ser do ruído, do excesso de informação e tudo mais, mas creio que não.
(Claro está, no meu modelo, os meus sinais fazem sentido).
Nem Bem nem Mal, as coisas tendem para ser como têm de ser e o Tudo dissolve-se no Todo novamente.
(1) – mesmo levando em consideração a questão da anti-matéria; misturar ambas (matéria e anti-matéria, ou partícula e anti-partícula) leva à sua aniquilação enquanto partículas e anti-partículas, gerando no entanto raios gama ou até novos pares partícula/anti-partícula.

(2) – Deus para um alquimista nem sempre é a ideia a que estamos mais acostumados… levando em consideração que a Alquimia foi practicada e desenvolvida pelos egípcios e gregos paganos, pelos indianos hindús, os taoístas chineses e os africanos muçulmanos e ainda pelos cristãos de todos os continentes, é preciso entender a coisa como um conceito mais genérico.

(3) – a mortalidade ou a ausência desta também dá pano para mangas…

(4) – A coisa tem muitos nomes certamente, e nenhum deles lhe fará jus na sua limitação de coisa que apenas é. Fiquemos com anekdiegetos que é grego para algo entre o indescritível e o inefável.

(5) – René Guénon e Julius Evola escreveram coisas boas sobre este tema.

Comentários

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  1. x

    não estava à espera de encontrar um post destes aqui… :) mas ainda bem! vou descarregar esse livro… obrigada!

  2. Susana Quartin

    Eheh, também não estava a espera.

    O que me levou a este "mundo" foi a arte, que é verdadeiramente fascinante, e a curiosidade, a necessidade, de a contextualizar na História e de passar de uma apreciação meramente estética para uma compreensão mais profunda. Dito isto, as quase 600 páginas do Alchemy & Mysticism da Taschen são um miminho que tem estado na minha mesa de cabeceira.