Daqui Ali – Texto Quatro [A Boleia de Xanthi]

 o bin laden foi morto a 50km de onde estou agora mesmo, que cena… e passei na vila onde foi morto anteontem! se calhar até era aquele méne ali a mijar atrás daquele post. mas o texto abaixo é de um dia peculiar aqui há um par de meses, da macedónia para a grécia. para seguir mais de perto esta viagem clica aqui para o blog, e aqui para a página do facebook com informação mais atualizada, fotos e essas cenas…clica em “gosto” porque ando à procura de patrocinadores (100% do guito vai para uma instituição em goa) e quanto mais pessoal, mas atractiva é a cena, claro…
Quando acordámos naquela manhã de vinte de fevereiro, o nosso modesto objectivo era ir de Skopje, a capital Macedónia em construção por encomenda, até Xanthi, aquela cidade grega de que nunca tínhamos ouvido falar, mas que ficava num sítio porreiro no mapa, ali entre onde estávamos e onde queríamos eventualmente ir – Istambul.
Caminhámos um pedaço até à estação de autocarro, onde apanharíamos um para Jánum Lembro, um sítio propício para a boleia. Mas ao chegar, vista de olhos aqui, vista de olhos ali, parecia não haver nenhum autocarro. Um méne veio ter connosco, o predador do turista perdido, e ofereceu-se para nos levar. Parecia simpático e tudo mais, disse que eram quatro quilómetros e difícil de lá chegar, e um gajo lá acedeu. Entrámos no carro, inspiramos, expirámos, e tínhamos chegado. Berro aqui, berro ali, e lá ficámos, com o gajo a levar-nos por pascácios mas, ao menos, sabendo que um gajo sabia. Mau carma taxista, mau carma, ahahahah!
A primeira boleia foi um mimo. Falei com um, não deu, falei com outro, e siga caminho. E rapaz e a sua mulher iam parar perto, mas deixaram-nos na autoestrada, porreiro. Lá, paravam poucos carros. Começamos a equacionar a hipóetese de nos separar-mos, para facilitar. Sendo que o João tinha apanhado a primeira boleia da única vez em que nos separámos (em Portugal, ainda que essa boleia tenha significado que ele precisou de ficar num hotel nessa noite ao passo que eu, com e a minha segunda boleia, cheguei ao destino), calhava-me a mim seguir primeiro. Contudo apareceu um méne que nos podia levar aos dois. Mais uma vez, foi p’rai o primeiro ou segundo a quem perguntámos. Ainda andámos bem, pelo meio daqueles montes macedónios espetaculares. Deixou-nos numa estação de serviço mais deserta que a lua num feriado! Aí sim, viu-se que se aparecesse alguém que só levasse uma pessoa, não era de desaproveitar. Eu fiquei na estação de serviço e o João foi esticar o polegar para a estrada. Passado uma hora trocámos. Eventualmente apareceu o albanês cujo nome não recordo, com a sua carripana velha como o cadáver do Einstein, que podia levar uma pessoa. Oferecemos dinheiro, fizemos aquela carita, mas não resultou. Lá segui com o gajo, cheio de frio, sendo que entre a porta e o chaçi da sua carrinha havia o espaço de um palmo. Fomos falando naquela língua universal que é a gestual e o uso de palavras chave semelhantes entre línguas, até que ele me deixou algures não tão longe da fronteira, debaixo de uma ponte na autoestrada. Eu, que pensava que o gajo me ia levar directinho à Grécia…
               
Aquilo estava agreste mas agreste pá! Um frio do caraças, os carros a passar e só se ouvia aquele zumbido e as gotas a esmagar a minha cara. Mas altamente. Que se lixe! Aquela sensação do desconhecido! Custa quanto? Estava ali sem saber onde estava e se me ia safar, mas que interessa? O que interessa… bem o que acabou por interessar foi o casal que me apanhou quando decidi caminhar debaixo daquela mini-tempestade. Às vezes o pessoal tem pena de ver alguém à chuva e pára o móvel.
               
Primeiro disseram que iam até Thessaloniki, o que era altamente. Mas depois disseram que iam sair “ali mesmo à direita” e que tinham que me deixar antes da fronteira. “Será que me peidei?”  pensei eu. Assim, atravessei a fronteira a pé, algo que nunca tinha feito. Estava à espera de olhares e perguntas curiosas dos guardas, mas nada disso. Não sou assim tão especial, pois claro! Atravessando a fronteira estiquei o dedo na Grécia. O Apenas-Grego-Falante que parou ia para Thessaloniki. E eu que queria ir quase até esta cidade, mas quase só… aprendi aí que convém levar as cidades todas escritas num papel. Se vais até a Cidade D, leva um papel a dizer Cidade A, B e C. É que eu nmão conseguia explicar ao homem que queria ficar antes de ele virar para Thessaloniki, e por isso em Thessaloniki aterrei o couro!
               
Lá, caminhei um bocado sem destino, à procura de um café com net, para ver como saía de lá, e procurar um sofá (www.couchsurfing.org) como plano Z. Correu bem, muito bem. Isto porque quando naquele site vi, no grupo de emergência [de pedidos de sofá] que o Pawel, o méne que eu tinha conhecido em Belgrado, andava por aqueles lados. Vi que o seu último login tinha sido uma hora antes, e mandei-lhe mensagem.
               
Quando dei por mim estava a caminhar na berma de uma autoestrada grega com carros a passar a 150km/h, à chuva, com as pernas cansadas de mais de hora e meia de caminho, com o Pawel, que seguia comigo para Xanthi. Gajo porreiro, fiquei a saber. Bom amigo, fiquei a ter. Ia pensando no João, o puto de 18 anos que tinha deixado Portugal comigo, e quase me preocupando se estaria bem. Mas o gajo tinha já andado pela Europa dois meses, sozinho, e tinha-se safado, portanto…
               
Quando um gajo começava a quase-desanimar, eis que parou algo! Na autoestrada! À noite! À chuva! Um camião turco! Foi a minha primeira experiência com a boleia turca, a primeira de uma bela linha de estórias e alegrias dignas de uma música do Fernando Tordo. O camionista, que tinha apenas um lugar disponível, levou-nos aos dois até 6km de Xanthi. A partir daí era esticar o braço e caminhar, caminhar!
               
Caminhámos uma hora, e as placas pareciam sempre dizer “Xanthi 6km” o que era estranho. Tentava ligar ao João, que tinha deixado 6 horas e 450km antes, e não obtinha resposta alguma. Entretanto a mãe dele já me tinha ligado e tudo mais, até o meu pai, não sei como!
               
Eis que um carro parou! Do mesmo sai uma gaja aos gritos alegres. “Que cena”, pensei. Aproximei-me e vi que não era uma gaja, era o João… tinha apanhado boleia da sua boleia… com transportes públicos estas cenas não acontecem…

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