Daqui Ali – Texto Três [Conversas Muito Sírias]

[‘Tou no Paquistão de momento, numa situação interessante, sem guito… mas tudo se resolve sempre :p mas não é disso que vamos falar hoje. Para quem quiser seguir mais de perto as incidências, como apanhar boleia “tresantontem” e acabar em casa dos ménes bêbedo com vodka iraniana caseira a ver uma tentativa de acasalamento equestre, que clique aqui para o blog. Para quem quiser ir vendo eventuais fotos (quando possível) e acompanhar de forma mais actualizada, que se amigue aqui.]
Este texto não é um artigo. Não tem o objectivo de servir de reportagem e não forneço referências para o que exponho senão a minha experiência com um par de pessoas locais e os meus subjectivos sentimentos.
Quando entrei na Síria levei menos de um segundo a reparar na cara do senhor de bigode que estava, bem, em todo o lado. De vez em quando aparecia uma de um senhor mais velho, que deduzi, e mais tarde confirmei, ser o seu pai. Estranhei aquela devoção e questionei se a Síria seria efectivamente uma república, ou um sultanado, ou algo assim… bastou uma olhadela para aquela placa enorme a dizer “Welcome to The Arab Syrian Republic” para confirmar o que pensava. Uma república. Onde pelos vistos amam o seu presidente. Vale a pena repetir-me, para explicar que é uma coisa mesmo avassaladora – não se pode andar cem metros sem ver uma fotografia do presidente, seja em quadros nas casas, emblemas bordados na roupa dos militares, selos ou até nas janelas dos carros, tipo como os azeiteiros em Portugal têm a dizer Racing e essas cenas.
A primeira pessoa com quem falei acerca do presidente foi com o Amad, o rapaz que providenciou o meu alojamento, em casa de um amigo seu. Ele gosta mesmo do presidente. Os seus olhos sorriam ao falar em como, desde que ele está no poder, a Síria tem vindo a subir em termos económico-políticos e em como a Síria tem ganho respeito de outros países que têm vindo para investir no país. O presidente não apoiou a caça às armas de destruição maciça levada a cabo pelos suspeitos do costume e quando se deu a verdadeira revelação da inexistência das mesmas, quem ficou a ganhar foi quem ficou quietinho.
O senhor está no poder há nove anos, se bem me recordo, e teve mais de noventa por cento dos votos. Quando o Amad me disse isto achei estranho – fico sempre renitente quando alguém tem uma maioria tão absoluta. Ainda assim, pouco sabendo como sei, limitei-me a ouvir o seu entusiasmo, colocando uma ou outra questão. Todavia, tinha a sensação de quem havia algo mais. Geralmente há dois lados que veem as coisas de maneiras diferentes e é sempre importante procurar estes lados para que possamos ter uma informação mais completa e poder decidir assim o que estará, eventualmente, certo ou errado. Mas claro que não podia andar pela rua a perguntar o que achavam do presidente. Corrijo-me. Não está claro. Nos países europeus não seria descabido, pelo menos para pessoas como eu, interpelar um estranho na rua e inquirir acerca do governo. Mas ali eu tinha a sensação que não era bem o mesmo.
Certo dia fui a Palmyra. Curti bués. Uma cidade romana em ruínas com vistas magníficas. Quando cheguei, pedi direcções a dois jovens que passavam. Eles disseram que caminhariam comigo. Claro que o Pedro manda logo “então e o vosso presidente, que tal?”. Um deles arregalou os olhos e disse “yes, we love him!”. Estranhei, mais uma vez, tanta paixão pelo méne de bigode. Mas cada um com a sua cena. Já o outro disse “not so much”. Quando perguntei porquê, disse, baixinho, que era por causa do passado. Eu perguntava acerca desse passado e o rapaz respondia com umas evasivas. “Já esgotei as perguntas directas”, pensei, “Agora vou ter de ir à volta subtilmente”. Fomos caminhando e pouco a pouco o rapaz que tinha dito que não gostava dele começou a falar, mas baixinho e sempre a olhar à volta.
Disse-me que a Síria era uma república mas que a verdade era que o presidente anterior tinha, de certa forma, como que passado o poder ao seu filho, como num reinado. Esse mesmo presidente-pai tinha sido responsável pelo massacre de 48000 pessoas no passado (o tal passado de que falava) – pessoas que so opunham, de uma forma ou de outra, ao seu regime. Um tanto ao quanto incrédulo, perguntei se isso era mesmo verdade, e se havia indícios sólidos. “It’s very true”, respondeu o outro, que disse que amava o presidente. Estranhei. A cena é: esse rapaz pensava que eu era um agente da polícia e que estava a indagá-los com outros propósitos. Aparentemente tinha acontecido algo semelhante com um grupo dos seus amigos, em que alguém os tinha interpelado, e quando um deles manifestou o seu desagrado, foi levado dentro e… espancado. Passei-me! Eles pensavam que eu era um agente da polícia à paisana, disfarçado de turista, à procura de pessoal que não curtisse o bigodes?!
Perguntei como eram possível, então, que ele tivesse tido mais de noventa por cento dos votos. Teria ele “arranjado” a contagem? Não exactamente. O que se passa é que, disseram-me, quando alguém vai votar há um agente que vê em quem é que a pessoa vota. Um voto “errado” e o teu nome fica registado.
Acima de tudo, ficou comigo o medo que eles tinham do seu governo. O medo de falar livremente. O medo de que um massacre como o anterior, das 48000 pessoas, possa acontecer a qualquer momento. Especialmente com todas as revoluções e manifestaçõs a ocorrerem nos países islâmicos, a Síria redobra os esforços para evitar qualquer tentativa de mudança.
Um dos inconvenientes de andar em viagem é seguir as notícias do mundo com dificuldade. Chega-me tanto do que me rodeia e experiencio, mas pouco do que passa para lá disso. Mas desse pouco tiver a oportunidade de saber que, um dia depois de eu ter deixado a Síria, houve confrontos no sul do país onde morreram 10 pessoas.
Qual é o preço da liberdade?

Comentários

Comentar