De John Cage a Sun Ra

All audible phenomena = Material for music

4’33”. 273 segundos. Se o primeiro número parece familiar, é porque é provavelmente a obra mais famosa da música clássica dos últimos 70 anos. Já o segundo, é porque 273 graus negativos é o zero absoluto, a temperatura a que todo o movimento pára – incluindo, claro, as vibrações sonoras.
A inspiração para a composição desta obra partiu de uma visita de Cage a uma câmara anecóica, um espaço onde o eco e qualquer reflexão de som são anulados. O silêncio total é então usado para medir as respostas de microfones, por exemplo. Mas, ao tentar “escutar” o silêncio, Cage reparou em dois sons, um agudo e um grave. Ao perguntar acerca deles ao responsável pela câmara que visitou, ficou a saber que o som grave era o do seu sistema circulatório, e o agudo o do sistema nervoso. A conclusão foi simples: havendo vida, não há silêncio.
Se isto é música, é discutível, mas é arte sonora. Cada performance da 4’33” (dividida em 3 movimentos, para dar um ar formal à coisa) será totalmente diferente – o som de cadeiras a mexer, a tosse de alguém ou um riso nervoso, bem como a componente visual de uma orquestra quase imóvel, fazem parte da obra. Com ela, Cage afirma que só são 4 minutos e meio de silêncio para uma pessoa que nunca aprendeu a ouvir. E isso faz-nos pensar até onde é que vai a experiência musical. Todos os sons associados a um gira-discos, desde o ligar da aparelhagem até ao pousar do vinil, não farão parte dessa experiência? Só os escutamos quando temos o objectivo de ouvir música, sendo portanto bem diferentes do som do clique do rato para abrirmos uma música no computador. Uma das muitas histórias relacionadas com Cage relata que ele foi visto a abandonar um concerto momentos antes do início da música. Quando questionado acerca disto, Cage respondeu que só tinha ido ouvir os músicos a afinar os instrumentos. Será que música é qualquer som percepcionado como tal?
Muita da arte do século XX vive disto, das ideias por detrás da arte. Quem quer arte de consumo imediato não consegue apreciá-la, e mesmo quem estuda as motivações dos artistas pode achá-las absurdas, mas exercícios filosóficos destes podem servir para inspirar artistas posteriores, mesmo em outras áreas. É curioso constatar que na mesma altura em que Cage compôs 4’33”, Yves Klein (o pintor francês que passou anos à procura do azul perfeito) compôs a “Monotone Silence Symphony”, com 20 minutos de um drone “estático” seguidos de 20 minutos de silêncio, e que um resultado algo semelhante partiu de motivações bem diferentes. Mais tarde veio Ligeti, que, para satirizar Cage, compôs a peça mais curta da História, intitulada 0’00”. No entanto, todos eles sabiam que o prazer que estas peças nos podem causar teria de partir de elementos extra-musicais.
Não vou questionar muito o que será arte ou não, nunca mais saíamos daqui. Erik Satie compôs peças que afirmou serem apenas ruídos de fundo para as pessoas – neste caso, o próprio artista nega o estatuto de arte à sua obra. Mas muita gente colocará Satie num patamar bem acima de Cage. Então o que é que vale mais, a ideia ou o resultado? Essa música de Satie, mal-sucedida na época (porque o compositor pedia ao público para continuar tudo à conversa, mas as pessoas calavam-se para escutar a música) inspirou os field recordings que agora encontramos em todo lado. Há quase um ano certo, o Hélder Costa escreveu um pouco sobre isso no antigo blog da Amplificasom.
Pessoalmente, acho tudo isto bastante interessante. Se um comentário casual pode despoletar momentos de inspiração, porque é que este tipo de composição não poderá ter ainda mais poder? Mesmo que não lhe seja concedido valor musical, parece-me que a ideia, por si só, merece ser divulgada. Fleming descobriu a penicilina por acaso; Godard usou pela primeira vez jump-cuts porque teve de tornar o filme mais curto, já depois da montagem; Edison melhorou a lâmpada e o telefone, criações de outros inventores; Júlio Verne “antecipou” os aviões e os submarinos; o cinema surgiu a partir de experiências com sucessões rápidas de fotografias; na música, as covers de Elvis da Hound Dog, de Johnny Cash da Hurt ou de Jeff Buckley da Hallelujah têm uma força que não parece presente nas versões originais; e o que dizer do fuzz, que surgiu de um erro de gravação?
Os dois vídeos de hoje não são uma comparação entre dois artistas. São dois aspectos da mesma pessoa, o Cage-pensador e o Cage-músico. Em comum têm um enorme amor pela música, que não passará despercebido a ninguém. Os últimos dois minutos do primeiro vídeo marcaram-me mais do que a esmagadora maioria das bandas que ouvi até hoje.


As sugestões desta semana não têm qualquer fio condutor, porque já vimos que cada obra destas requer uma explicação isolada. Estas são apenas algumas das que gosto mais.

John Cage’s prepared piano

Cage colocou vários materiais nas cordas de um piano para produzir timbres novos, e alguns dos resultados são interessantes. O que se ouve nesse vídeo faz parte da Sonata V for Prepared Piano, de 1948. A primeira peça que Cage compôs dentro deste estilo foi Bacchanale (1940), para acompanhar uma dança.

Satie – Vexations (1893)

Peça na qual Satie decidiu acrescentar no fim uma indicação para se “tocar 840 vezes”, provavelmente sem motivo nenhum. John Cage “liderou” uma equipa de 12 pianistas em 1963, dando um concerto de 18 horas. O concerto era cronometrado à porta e, quando um espectador saía, devolviam-lhe parte do dinheiro do bilhete, com base no tempo que lá esteve. Uma pessoa chegou mesmo a pagar menos de metade do preço por ter aguentado as 18 horas sem sair do seu lugar. A justificação de Cage: “People will understand that the more art you consume, the less it should cost.”

John Cage – Music of Changes (1951)

Muitos artistas dizem que são apenas veículos para transmitir a música que lhes surge na cabeça. Alguns falam de inspiração divina, por exemplo, mas o que é certo é que implantam os seus próprios gostos naquilo que gravam. Cage quis, conscientemente, criar uma obra na qual ele tivesse muito pouco input criativo. Music of Changes foi composta através do I Ching, literalmente atirando moedas ao ar para definir o desenvolvimento da música. Este é, na minha opinião, um dos princípios mais importantes da obra de Cage – em várias peças ao longo da sua carreira, Cage foi o autor da ideia, mas não da música. Essa foi deixada para o acaso.

John Cage – Imaginary Landscape nº 1 (1939)

Um quarteto constituído por um piano, um prato de bateria, e dois gira-discos. Ainda nos anos 30, Cage já tinha percebido as potencialidades dos gira-discos para a criação de música, e sublinhava a necessidade de quebrar a barreira entre os instrumentos anteriores ao século XX e todos aqueles que também produziam som mas que não tinham lugar numa orquestra “clássica”. Outra ideia aqui presente é a de prolongar a composição para criar um ambiente caótico que nos absorva, um princípio adoptado por músicos tão distintos como Philip Glass e Justin Broadrick.

John Cage – Imaginary Landscape nº 4 (1951)

Abraçando o mundo da electrónica, podemos aumentar ainda mais a liberdade dos próprios sons – Music of Changes estava limitada pelo timbre do piano. Com esta nova peça, Cage indicava as frequências a que cada par de intérpretes deveria colocar o seu rádio, quer existisse uma estação, quer fosse apenas “silêncio”. A evolução desta peça será sempre completamente diferente – a rádio à hora de almoço terá uma programação bem diferente da rádio das duas da manhã.

 John Cage – Imaginary Landscape nº 5 (1952)

E, já agora, podemos aproveitar para cortar pedaços de várias fitas magnéticas e colá-los por outra ordem. Cage apenas indica que devem ser excertos de 42 obras diferentes, repartidas por 8 faixas de áudio, e indica a duração e intensidade de cada trecho. Apercebendo-se de que os intérpretes continuavam sujeitos a demasiadas regras, Cage tentou dar-lhes também mais liberdade (mais tarde, tentou definir quanta liberdade poderia ter um intérprete – caso não fosse controlado, o músico poderia mostrar demasiado do seu ego, tornando a obra “impura”).
O melhor é mesmo pegar-se numa biografia do John Cage, ir ouvir cada peça sugerida, e tentar perceber a interpretação dele das religiões orientais. Não sei se era bom músico, e não sei se era um “compositor”, tendo em conta que tentava limitar tanto a sua própria intervenção nas obras, mas era certamente um criador. Pelas entrevistas dele, parecia ser uma pessoa simples. Alguém “excêntrico”, é certo, mas que suprimia o seu ego a ponto de não se notar nele qualquer indício de arrogância: queria transmitir as suas ideias, não porque queria fama, mas porque gostava que outras pessoas as experimentassem e brincassem com elas. Precisamos de mais gente assim.

 

Na próxima semana: De Stockhausen a Aphex Twin

Comentários

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  1. Saturnia

    Daniel obrigada pela tua escrita, pelo teu gosto, pela tua “geografia musical” e sensíbilidade.

  2. Daniel Sampaio

    Obrigado pelas tuas palavras, Saturnia. Como sei que estou a escrever textos maiores do que aquilo que tinha inicialmente previsto, fico contente por saber que isso não está a ser um entrave à leitura.