De Steve Reich a GY!BE

I have no real interest in music from Haydn to Wagner.

Um casal está atrasado para um jantar. O homem vê a mulher a maquilhar-se e diz-lhe:
-Não percebo porque é que enches a cara com esses produtos.
-É para ficar mais bonita.
-Então porque é que não ficas?

Podemos dizer que o minimalismo é uma corrente que parte da ideia de que a música clássica ficou recheada de demasiados artefactos inúteis na tentativa de a embelezar, e que devido a isso estava em risco de perder a sua essência. Quem adere a esse estilo de composição costuma mostrar que se pode fazer muito com base em muito pouco, e por isso fala-se em minimalismo mais no sentido de economizar meios, já que muitas das músicas são bastante longas, podendo a mesma frase (ou nota) ser repetida dezenas de vezes (como em In C, de Terry Riley). Essa repetição torna quase impossível procurarmos estruturas na música (vamos mesmo ver se cada passagem foi repetida 80 vezes?), ela não se desenvolve da mesma forma que o jazz, o rock ou uma sonata clássica, e não parece dirigir-se para um fim claro. De certa forma, o minimalismo está menos ligado à história da musical ocidental do que às tradições de outras culturas, como música percussiva africana ou cantos tibetanos. Os quatro grandes impulsionadores do estilo nos Estados Unidos foram Terry Riley, La Monte Young, Philip Glass, e Steve Reich. Hoje vamos falar deste último.
A citação de Reich ali em cima é compreendida quando se repara que toda a obra dele enfatiza o ritmo. Na semana passada citei McLuhan quando falei de Rautavaara; no caso de Reich, sim, podemos dizer que o meio é a mensagem. Na primeira Imaginary Landscape e na Music of Changes de Cage, não percebemos como se chega ao resultado final; com Reich, percebemos muitas vezes que há pelo menos duas partes distintas, e que não estão sincronizadas. O conceito de phase é essencial em quase toda a sua música.
Até mesmo na Pendulum Music, sabendo os “instrumentos”, o título indica-nos como é tocada: vários microfones a oscilar de um lado para outro de uma forma não-sincronizada (“desfasada”), perto de colunas, apanhando passagens de feedback. O material usado vai influenciar sempre o som, e podemos reparar que esta versão dos Sonic Youth soa bastante diferente da anterior.
Reich começou a brincar com isso por volta de 1965, com samples de voz. O jornalista Philip Sherburne comparou It’s Gonna Rain com Beat That Bitch With A Bat, e percebe-se porquê, da mesma forma que podemos agora pegar em dezenas de músicas (principalmente na electrónica) que fazem brincadeiras desse género. Só que, para Reich, cingir-se a isso não chegava, e podemos brincar com as fases de várias outras maneiras: ou de uma forma simples, como a Hiromi Uehara faz na Time Difference (a banda toda e a mão esquerda dela a tocar a metade da velocidade uma melodia muito parecida com a da mão direita), ou repetir sempre as mesmas quatro notas a um ritmo ligeiramente acima do resto da música, como os Mugstar fazem em Serra por volta dos 8:35 (ao início parece que a nota “forte” é a 1º, mas entretanto a acentuação vai mudando e recai durante algum tempo em cada uma das outras três notas da sequência).
Steve Reich levou esse conceito a um nível absurdo com Piano Phase. Essa música começa com uma frase bem simples, tocada por 2 pianos em uníssono (nesse vídeo, uma está pré-gravada e a outra é ao vivo). Mas um dos pianistas toca ligeiramente mais depressa, e é instruído a sincronizar novamente com o outro quando “avança o primeiro passo”, ou seja, quando um está a tocar a primeira nota da frase, o que acelerou deve tocar ao mesmo tempo a 2ª nota, “encaixando” aí durante algum tempo; depois, deve acelerar outra vez e abrandar quando a sua 3ª nota coincidir com a 1ª do outro; e sempre assim até chegarem ao uníssono inicial. Não sei se o facto de a melodia ter 12 notas é um piscar de olho aos serialistas; o que sei é que me custa “aceitar” que o que ouço do início ao fim da música é sempre a mesma sequência: as conjunções diferentes mudam tanto o som geral que ficamos a achar que a melodia muda. As notas podem ser fáceis (quem nunca tocou num piano aprende facilmente esta sequência), mas o ser humano tem o instinto inato de se sincronizar, como quando batemos palmas num concerto – quem tiver um ouvido minimamente bom e estiver ligeiramente fora de tempo, acaba por entrar no ritmo das pessoas à sua volta. Um guitarrista a tocar sozinho de memória e um baterista a fazer o mesmo, com a mesma música, podem fazê-lo a um andamento diferente, mas tocando juntos conseguem encaixar. Mas um guitarrista que tente tocar, conscientemente, ligeiramente a seguir ao baterista, vai ver as dores de cabeça que isso causa. E é exactamente isso que Reich obriga a fazer nessa música. Se isto já é impressionante, o que dizer quando é uma única pessoa a tocar as duas partes??
Já que falámos de bater palmas, temos outro exemplo minimalista (nem de instrumentos precisamos), com ênfase no ritmo, e com várias fases em simultâneo: Clapping Music, de 1972. Esta música abriu sempre os concertos da primeira tour de “Steve Reich and Musicians”. Quando lhe pediram para falar da peça, Reich disse apenas que “mãos são fáceis de transportar”.
Entretanto, Reich deixou de se preocupar tanto com os conceitos por detrás da sua música, e começou a compor com base no som geral. A música mais recente que conheço dele é 2×5, composta em 2008, na qual Reich experimenta contrapor duas formações musicais algo comuns no rock. A forma como as melodias se vão acumulando faz-me lembrar algumas músicas dos japoneses LITE, como Sequel to the Letter.
O minimalismo, então, não é assim tão “mínimo” quanto isso, e por isso acho que é legítimo comparar Reich e Godspeed You! Black Emperor. Quando ouvi uma certa música de Steve Reich, senti-me como quando ouço GY!BE, com aquelas músicas enormes que progridem não só de melodia em melodia, mas também de “estado de espírito”. Às vezes parece triste, a tristeza combina-se com melancolia, e quando damos por isso a melancolia parece alegre (noutras músicas, é apenas devastadora). Custa-me falar desta banda porque não gosto de analisar demasiado as suas músicas – é o tipo de banda que ouço quando quero esvaziar a mente e aceitar simplesmente a obra de arte que me oferecem. Em termos musicais, estas duas músicas podem não ser muito parecidas, mas tento ouvi-las da mesma forma. Têm pontos em comum aqui e ali (o início da música de Reich lembrou-me imediatamente a passagem aos 4:15 na versão de estúdio da Providence), mas não lhes dou muita importância. Nas rubricas anteriores tentei fazer paralelismos entre tipos de composição; aqui, o que pretendo comparar é o tipo de audição.

Entretanto chegou-me aos ouvidos que Moya, do EP Slow Riot for Zero Canada, teve o título temporário de Gorecki enquanto estava a ser composta. Fui ler sobre isso e há quem sugira que a inspiração tenha partido da 3ª Sinfonia deste compositor. Tirem as vossas conclusões.

 

Na próxima semana: a conclusão da rubrica.

Comentários

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  1. André

    Parabéns, Daniel! Os teus devaneios sonoros estão cheios de bom gosto, fazem ligações que à partida se podiam imaginar improváveis, têm uma linguagem simples, directa e humilde. É uma pena faltar apenas uma segunda-feira para terminar o mês…

  2. Daniel Sampaio

    Obrigado, André! Até dá jeito acabar agora, visto que começou a época de exames, mas ainda há tempo para uma experiência na próxima segunda.