Disco Forte da Semana: Hecate

Para esta semana, tinha pensado em falar de Kylesa e do seu Spiral Shadow, mas deduzo que quem frequenta a casa não precisa de ser recordado de que hoje haverá uma orgia de riffs com pratadas de duas baterias na ementa do Hard Club. Por isso mesmo, e da mesma remessa dos “discos perdidos e não pedidos”, sai uma das grandes propostas do black metal do ano passado. Pelas minhas contas, a estreia dos italianos Abaton deverá fechar um ano de 2011 incrível nos balanços do BM – e não se coloca abaixo de uma grande média –, da mesma forma que acaba com os meus discos de 2011 aqui na Amplificasom.

Este foi, com toda a certeza, o meu ano dentro do género – foram os doze meses em que mais activamente me interessei pela oferta de BM e que mais satisfeito fiquei com uma decisão do explorar uma etiqueta, na verdade, serve para descrever malta que gosta de pôr umas metralhadas nas baterias e de gritar como se estivesse numa gruta. Foram doze meses em que se chegam à frente os Wolves in the Throne Room, os Altar of Plagues, os Blut Aus Nord e os Tombs, todos com grandes full-lenght, e em que todas as outras bandas que, à partida, se afirmariam como francamente boas (Liturgy, Krallice e Burzum, assim de cabeça), não passaram do nível satisfatório. Aliás, Burzum desiludiu-me de tal forma que me deixou super-descansado relativamente a todas as objecções que tenho para com as ideias do Varg e que sempre me causaram uma certa náusea na discussão do seu trabalho – que não são poucas, bem pelo contrário . Agora, as náuseas estão no seu último disco ,sinal de uma certa coerência artística em que tudo é nivelado pelo mau.

No meio do manancial de BM em que mergulhei, estão os Abaton, o monólito que travou a minha imersão no género. Hecate foi uma queda de cabeça que me desconcertou sobremaneira e, à laia da má experiência, me alertou para os perigos de mergulhar em águas profundas sem verificar primeiro se há formações rochosas como os desvios doom da banda italiana, que oferece neste disco de estreia uma lentidão ponderada com a intensidade das melodias black metal. A combinação é explosiva e arrisco, até, a dizer que a cabeçada foi mais dura e deixou cicatrizes mais profundas do que o disco de Tombs. Este quinteto, que caminha agora para os seus dois aninhos, demonstra uma maturidade na sua abordagem aos géneros negros e nas suas melodias depressivas e quase tão malévolas quanto as de Blut Aus Nord que me faz ansiar pelo que se seguirá. Não se precipitam nos blast beats e gostam de ajarvadar durante bons pedaços com riffs bem graves, com força suficiente para fazer curvar algumas espinhas mais caprichosas.

Os Abaton podem não ter sido um dos grandes do ano passado, mas isso foi é porque as grandes ligas não apostam logo nos rookies. Eu, contudo, posso dizer que se ainda estivéssemos em 2011, eles jogavam na minha equipa inicial de fantasy black metal.

Aproveito para pedir desculpa pela verborreia, mas torna-se complicado falar pouco sobre discos que se querem fortes.

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