Divórcio de Culturas


Há 52 anos foi publicado o ensaio de C.P. Snow intitulado “Duas Culturas”, no qual este lamentava o grande fosso cultural que separa Ciência, Arte e Religião. Neste artigo Snow argumenta a favor da construção de pontes entre todas as áreas tendo em vista o progresso do conhecimento e em benefício da sociedade, mas, infelizmente, a sua visão nunca foi totalmente realizada; John Brockman sugeriu uma “terceira cultura”, de cientistas que comunicam directamente com o público apresentando o seu trabalho nos media, sempre que possível sem a assistência ou intervenção de terceiros, sendo que as conferências TED são, a meu ver, um bom exemplo deste tipo de autopromoção destinada a excitar e afiar a curiosidade de assistências dispostas a aprender. Contudo, ao mesmo tempo, muitos profissionais de humanidades, artes ou política permanecem satisfeitos dentro das paredes de um analfabetismo científico não sabendo resolver uma divisão básica e hesitando perante uma equação de 1º grau. Esta realidade perturba-me profundamente pois, fruto dos meus lanches adolescentes de copo de leite + sandes de fiambre + “Star Trek: TNG”, cresci a esperar que o melhor modelo de aprendizagem fosse o do Polímata, o Homem Renascentista, versado em vários assuntos.

Existem boas razões para este fenómeno lamentável. Mais do que a falta de bom ensino de ciências nas escolas públicas, constata-se que o analfabetismo científico não é um grande impedimento para sucesso nos negócios ou na política: mesmo ao nível universitário, a ciência é muitas vezes vista como apenas necessária para cumprir uma obrigação e depois ser dispensada, e faz falta ao sistema educativo superior um sistema de Minors em que se leccionem cadeiras de outras disciplinas de conhecimento. Para ser justo, poder-se-ia argumentar que cadeiras de Humanidades em cursos de Ciências e Engenharias seriam tomadas com a mesma indiferença, mas a realidade é que estes alunos não deixam de ser bombardeados por música, literatura e arte noutros lugares (como parte da cultura pop em que estão inseridos), e não é usual resolver exercícios de matemática como entretenimento; mais chocante é ver pessoas letradas orgulhosamente proclamar que “a ciência não é a minha coisa”, quase como se fosse uma medalha de honra indicativa do seu pendor cultural.

Assim sendo, deixo aqui o artigo original e esta review que considero serem leituras interessantes para quem quiser matutar sobre esta problemática.

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