Everything’s Bigger in Texas VII – O bater do coração da minha sobrinha

Era cerca da meia noite do dia da entrega, e eu estava em frente ao computador, como agora mesmo, sem saber o que fazer. Na altura, como agora, sentia que nada daquilo que pudesse “come up with” seria tão interessante como aquilo que eu gostaria de ser capaz de fazer, e esta dicotomia entre o “fazer” e o “dá-me tempo para ser melhor, e depois eu faço” (que muitas vezes nos leva a esquecer, no meio do tempo que não temos, que se não tentarmos nunca seremos melhores) deixava-me (como ainda hoje deixa), derrotado, desorientado, e sem vontade.

Na altura, tinha um desejo; hoje, tenho uma sobrinha, que no sábado, dia do meu aniversário, me viu pela primeira vez no Skype (foi a primeira vez, de todas as vezes que a vi a ela, em que abriu os olhos – e acho que se assustou com a minha imagem no ecrã).

Feeling Born by Rui Silva

Os corações são stock sounds; os efeitos de fluidos e líquidos provêm da caneca de leite que estava à minha frente – e na qual introduzi uma palha na qual soprei, e depois os dedos, que contorci e que criaram uns sons interessantes, – e do meu estômago; os gritos da mulher são stock sounds; os “Keep pushing” são a minha voz; a “overall fuzziness” e sentimento claustrofóbico foram conseguidos ao tocar a pré-mistura da primeira parte dentro de um saco de borracha, com um microfone lá dentro; os sons da saída são uma amálgama de stock sounds com os meus dentes a ser escovados e sons estranhos da minha boca; os “beeps” das máquinas são retirados de uma gravação de alarmes de incêndio (só depois de acabar é que me lembrei que teria sido mais fácil procurar gravações de máquinas des hospitais a sério…); e o bébé a chorar são stock sounds, mas muito em breve, quando voltar a casa, vou substitui-lo pelo “real deal“.

Na altura entreguei o “assignment” na aula do dia seguinte com o nome “Feeling Born”. Hoje, chamar-lhe-ia “Sofia”.

(As agruras de não estar em casa, ou mais perto da família, em momentos como este, às vezes condicionam um pouco a capacidade de discursar sobre o que quer que seja. Mas isto é o que tento fazer: passar imagens através de sons. Este foi dos meus primeiros projectos, e, por essa razão e pelas outras enunciadas, está, literalmente, muito perto do meu coração, que por sua vez, abro aqui hoje convosco. Uma boa semana para todos, e liguem todos os dias à vossa família. É a melhor coisa que podemos ter!)

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