Em Madrid foi assim


O regresso a Madrid dos norte-americanos Enablers foi celebrado com uma actuação intensa que abanou todos aqueles que estiveram na pequena sala El Limbo. Poesia moldada por rock alternativo (ou vice-versa) e uma irreverente atitude em palco foram os elementos que criaram este concerto marcante.

Agressões poéticas

Que concerto! Intenso, incisivo e provocante. Um concerto de Enablers é mais que interpretação de música, é um desconcertante envolvimento no imaginário de Pete Simonelli. Não querendo diminuir os outros membros da banda, que ajudaram de forma excepcional a construir a ambiência demolidora por onde Simonelli caminhou, a verdade é que o poeta/vocalista norte-americano comanda a actuação do princípio ao fim. Move-se em palco como um Nick Cave, interpreta os seus poemas musicados com uma intensidade palpável e com uma expressividade impressionante – veio-me à mente o nosso Mário Viegas – e mergulha no público de vez em quando para nos relembrar que estar na audiência nem sempre significa estar numa posição passiva. Se a música foi predominantemente calma a plácida, as histórias contadas estiveram longe disso. O olhar de Simonelli era provocante, assim como os seus braços que agarravam nas roupas dos elementos do público, que os abraçava e os esmurrava no topo da cabeça (suavemente, claro), ou que infligiam na sua barriga golpes que coloriam as palavras. Ninguém esteve a salvo e ninguém se moveu.

O concerto moveu-se pelos dois álbuns editados pela banda de São Francisco, End Note (2004) e Output Negative Space, lançado este ano. “Five O’Clock Sundays”, “Up”, “On Monk”, “Ghosting” ou “Glimpses, Audio: Driving Late”, “And Last Night?” e “The Record” foram alguns dos temas apresentados. Duas guitarras, bateria a palavras ditas preencheram a pequena sala El Limbo e modularam aqueles que se mantiveram firmes e atentos. A ausência do baixo fez com que as músicas tivessem uma dimensão etérea, no abstracto da imaginação. Mas tanto Joe Goldring como Kevin Thompson fizeram com que fosse uma ausência que não se sentia. As melodias expansivas entrecruzavam-se com as ruidosas descargas de decibéis, enquanto Simonelli se retorcia corporalmente e a sua expressão facial se aguçava como um punhal mortal. Por vezes, Kevin Thompson descontrolava-se de tal forma que parecia penetrar dentro da sua guitarra, esquecendo o seu corpo adoentado. Quando parava a música, necessitava respirar profundamente. Preparar o próximo ataque.

Para o final do concerto ficou reservada “Pauly’s Days In Cinema”, uma sublime composição que abanou cada um dos presentes e os levou violentamente contra as paredes da sala. Simonelli perdido pelo público e as guitarras que cresceram até às nuvens onde moram gigantes. O suor da camisa negra de Simonelli era a prova da sua entrega; o pequeno tremor que se instalava sempre que se iniciava uma música, a prova de um concerto único e inesquecível. Fica o conselho: ver um concerto de Enablers é uma oportunidade de viver uma experiência emotiva, intelectual e artística irrepetível.


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