Everything is Bigger in Texas IV – The conversation

Sempre fui uma pessoa que gosta de ouvir.

Desde pequeno, quando ainda andava a tentar perceber o que era isto da Música, e das bandas, e dos concertos, altamente influenciado pelo meu irmão mais velho, que fazia desfilar uma variedade musical de luxo lá em casa, sempre senti que às vezes me preocupava mais com aquele brilho (ou falta dele), em algo que na altura não sabia o nome, mas que agora sei que se chama “timbre”; com a forma como os instrumentos se posicionavam nas colunas – algo que agora sei que se chama “panorâmica”; com a forma interessante como algumas coisas soavam mais alto que outras, entusiasmando-me imenso cada vez que me apercebia de algum detalhe, uma ou duas notas de guitarra que apareciam no fim da música, em reverse, e que mais ninguém parecia dar grande importância – algo que agora valorizo como “a mistura”. Nunca pensei muito nisso, até porque na altura o processo não me chamava à atenção. Queria era ouvir Música, Música, Música, e só quando me apercebi que valorizava mais as diferenças entre álbuns de uma mesma banda do que as semelhanças entre álbuns de bandas diferentes, entre outras coisas, comecei a ponderar que até gostava de saber como é que se grava um álbum.
Depois de acabar o curso de Produção e Tecnologias da Música, senti que tinha agora uma ideia mais concisa – a minha cabeça fervilhava de conceitos, de experiências que tinha passado e de experiências que queria tentar. Ouvir Música era tudo aquilo que eu fazia – quer estivesse a trabalhar, quer estivesse simplesmente a relaxar. Da mesma forma, quer estivesse a trabalhar, quer estivesse a relaxar, tinha sempre a tendência de fechar os olhos, para manter os ouvidos mais despertos.

(Já alguma vez ponderaram o facto de os ouvidos não terem pálpebras?)

Quando cheguei ao momento em que me sentia confortável no ambiente de estúdio, a trabalhar com bandas, assim como ao vivo, a “fazer som”, houve um momento em que deixei de gostar de ter os olhos fechados, e, se bem que o as variações de pressão, as compressões e rarefacções do ar, ainda continuavam a dominar a minha forma de estar atento, comecei a prestar alguma atenção também ao sincronismo (e à falta dele) entre aquilo que ouvia e aquilo que via.

Ao mesmo tempo, o meu lado mais geek começava a revelar-se, e um interesse crescente acerca de equipamentos “antigos” de captura, manipulação, edição e distribuição de som, nomeadamente o uso de fita; assim como uma paixão pelo minimalismo e pela voz humana por si só, começaram a criar um “drift” entre aquilo que eu tinha vindo a fazer, e aquilo que eu queria fazer… coisa que ainda não sabia o quê.

Foi aí que, numa aula de Mestrado, um professor nos mostrou um filme. Por muito que toda a gente faça uma cara de espanto sempre que digo isto, nunca, até essa altura, tinha sido dado muito a “ver filmes”. Como disse, preferia sempre fechar os olhos e ouvir Música, muita Música, e, por isso, admitia sem grande problema, a lacuna que tinha na apreciação da sétima arte. Mas aquele filme misturava tudo aquilo em que eu andava a pensar, e apanhou-me na fase de “abertura de olhos”.

Foi a partir daí que comecei a devorar filmes, e a perceber que, mais do que misturar Música em estúdio, ou fazer o tudo por tudo para um concerto “soar bem”, atrás da mesa de mistura, o que eu gosto mesmo é que me contem uma boa história, e de dar o meu contributo para ajudar essa história a ser passada daí em diante, com uma boa qualidade sonora.

Nunca na vida pensei que fosse começar a trabalhar com som para cinema – e, agora, para televisão, internet, e praticamente todos os media -, deixando-me fascinar pelas histórias que as pessoas têm para contar, e sentindo-me também eu parte delas, na forma como as posso manipular, mantendo-as fiéis a si mesmas, mas com infinitas possibilidades de mutação.

O filme que mudou a minha perspectiva chama-se “The Conversation“.

Em 1974, o génio de Coppola, aliado à incrível proficiência técnica impregnada de um bom gosto e discernimento das necessidades áudio-visuais de um filme com uma história bem contada, de um senhor chamado Walter Murch, assim como com a colaboração de um Gene Hackman num papel formidável, demonstrou-me o poder do som por si só, do ponto de vista técnico e de exaltação de emoções numa audiência, assim como, através do uso do tema do “áudio”/som na storyline em si, numa mistura que, sem dúvida nenhuma, me fez querer ser aquilo que continuo a trabalhar para ser: um sound designer.

Mas, ainda assim, e cada vez mais… dou graças por os meus olhos terem pálpebras, e os ouvidos não.

E, claro, na minha recente passagem por San Francisco, passei um largo período de tempo a passear na Union Square, onde a parte central do filme foi filmada… Como um verdadeiro geek de tudo o que é audio-related, a apaixonar-se rapidamente pelo cinema, mas com muito para aprender… :-)

Comentários

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  1. Joao

    epa post espectacular…. Acho que aos poucos também comecei a gostar cada vez mais de apreciar o trabalho de som nos filmes, principalmente em filmes mais antigos onde as limitações tecnológicas parecem pré-históricas para o habitual consumidor — isto se pensarmos que grande parte dos jovens de hoje já não sabe o que é uma fita magnética…

    Gostei mesmo muito de ler… Mais! :P

  2. Rui Silva

    João, obrigado pelo teu comentário! E sim, sei perfeitamente a que te referes… se bem que não sentes que às vezes é um pouco irritante esses SFX nos tirarem a concentração do filme em si (ainda ontem estava a ver o The Graduate, e aqueles stock sounds de carros a passar e portas a bater… ahah!)? Mas, sinceramente, não os consigo imaginar de outra forma, agora. Até o Automatic Dialog Replacement, assíncrono, é uma marca de um tempo em que, mesmo sem grandes condições, havia pelo menos interesse no bom som no cinema! :-) Obrigado, e um abraço!