Everything is Bigger in Texas I – The Great American Road Trip

Quando cheguei ao Texas, demorei algum tempo a processar a realidade. Se por um lado vir para os Estados Unidos sempre foi um sonho, uma vontade, um desejo, por outro lado nunca pensei que esse desejo, essa vontade, esse sonho, passassem alguma vez a ser mais que isso… E então, enquanto isso acontecia, recusei-me durante algum tempo a permitir a mim mesmo acreditar que essa era a minha nova realidade. Não, ainda era uma vontade, um desejo, um sonho.

Everything’s big in Texas
You know it is
I think I might have made a big mistake oh oh oh
Chord organ blues
Chord organ blues
Singing those chord organ blues

Não demorei muito – na verdade, não demorei tempo nenhum – a perceber que a vida aqui é muito diferente, não só por serem os Estados Unidos, mas principalmente por ser o Texas. Penso que isso se deveu ao facto de cedo me ter apercebido de que não e difícil ter uma vida relaxada e aproveitar as portas que se me abriam pelo simples facto de aqui estar, desde que estivesse disposto a mudar radicalmente a minha forma de olhar para o Mundo e de interagir com ele. Acho que foi isso que me atrasou um pouco a partida – por muito “mente aberta” que sempre tenha tentado ser, e por muito que se possa dizer sobre os Estados Unidos da América, isto aqui e outro mundo, completamente, e, se bem que sinto que os segundos passam mais devagar, e que consigo, definitivamente, fazer mais coisas, ser mais produtivo, em muito menos tempo do que alguma vez na vida, sinto que cada dia que passa e um salto gigante para um novo futuro… e amanha outro, e amanha outro, e amanha outro.

Não demorei muito, também – na verdade, demorei um bocadinho, mas os dias que demoravam a passar, passavam muito rápido entre si – a sentir o frio do medo de ter cometido um grande erro (oh oh oh) em ter vindo. Não e que algo estivesse errado aqui, mas senti-me eu errado ao cá estar, e deixar, não para trás, mas para Este, família, amigos, a minha gata, as minhas guitarras, um futuro que começava aos pouquinhos.

Wherever I go it’s a wild wind
Maybe someday it’ll blow me back home again
Chord organ blues
Chord organ blues
Singing those chord organ blues

Onde quer que eu fosse, era tudo uma grande confusão, dentro da simplicidade das coisas que todos sabemos como funcionam mas cujas particularidades nos irritam, quando não estamos virados para permitir essas pequenas (grandes) mudanças. Era o fascínio e a admiração misturados com a precoce saudade de casa, característica de quem ama de onde veio e se apaixona por onde esta, ao mesmo tempo que tem o coração e a alma a dizerem que na volta tão cedo.

Era mais fácil encontrar pontos de diferença com aquilo a que estava habituado do que pontos comuns com aquilo que sempre quis que a minha vida viesse a ser, se bem que todos sabíamos que era mais birra que outra coisa.

Mas “o tempo”, aquele que eu sabia que ia levar ate me habituar, também se mede no mesmo compasso que o tempo que passa mais depressa, ainda que mais devagar, aqui, por isso, ao segundo dia, mesmo sabendo que algum dia o vento me levaria de volta a casa, percebi que tinha um lugar para mim aqui, e que tinha de o aproveitar.

For every chord that is played
There is a word in my heart that has paid
‘Cause my soul loves music
And it loves to hear it made
Singing those chord organ blues

Para cada acção tem de haver uma reacção, para cada “prompt” uma resposta. Uma vida estável, mas sem estímulos, não e propriamente aquilo que nos conservara mais tempo, mas muito menos aquilo que nos manterá vivos. E ainda e cedo, ainda e muito cedo – se bem que, aqui, o tempo passa mais devagar, ainda que mais depressa – e por isso vou continuar a procura de um “acorde” para cada “momento”, de uma cor para cada acção, de uma reacção para cada acção.

“Everything’s big in Texas”, mas, mesmo para mim, que já o sei (you know it is), está na altura de explorar ainda um pouco mais, e ter a certeza de que não cometi um “big mistake” em me apaixonar por Austin. Parto amanhã para uma variante da Great American Road Trip, com primeira paragem no Grand Canyon. Não é muito importante saber quem sou, o que faço, onde vou… mas espero que daqui a umas semanas seja importante lembrar de onde vim, e entretanto, agradecer ao André a oportunidade de partilhar desta experiência.

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