Eyvind & Jessika: assim foi

Jorge Silva

Maria Louceiro

Jorge Silva

Maria Louceiro

“Eyvind Kang e Jessika Kenney têm ao longo dos anos mostrado o seu trabalho através de múltiplas colaborações com outros artistas. Para lá do álbum de 2005 que gravaram juntos, Æstuarium, ambos colaboraram com Sunn O))), por exemplo, numa lista imensa onde também há Wolves in the Throne Room, Asva e Sun City Girls, no caso de Jessika, e John Zorn, Patton e Master Musicians of Bukkake, no caso de Kang. Dois importantes músicos do presente que, misturando a mestria de um violino sempre limpo e uma voz habilmente flexível para cada situação, trouxeram ao Porto ume sessão de muita energia por campos de minimalismos intensos. O Oporto Gallery Hostel começa a habituar-se a estes concertos intimistas, para um público atento e interessado e que facilmente enche o espaço. E desta vez voltou a encher. A sala foi pequena para a quantidade de pessoas que marcaram presença. A Amplificasom desta vez teve a colaboração do colectivo Soopa e juntos organizaram um serão recompensador para quem lá esteve.

O início do concerto foi dado no meio da entrada, bem no meio das pessoas ainda de pé. Eyvind Kang surpreendeu os que esperavam para entrar na sala com os primeiros sons do seu violino e foi abrindo caminho para Jessika Kenney que logo a seguir iria aparecer. Desde as primeiras palavras se percebeu a presença de uma linguagem à partida estranha: o interesse que Jessika mostra pela língua persa eleva a experiência para campos que remetem o seu instrumento voz a abstrações que acabam em fortes transfusões emocionais. Nunca houve dúvida que as palavras de Jessika são o complemento certo para o universo de sons que habitam as composições de Kang. E esta voz, instrumento tão rico, permitiu uma tensão cativante que nunca se desequilibrou excessivamente para uma das partes durante o confronto entre cordas e palavras. Eram as palavras que iam funcionando como pequenosloops, mostrando um curioso e criativo trabalho vocal que conseguia, na simplicidade, um eficaz ambiente hipnótico. Kang usou na maior parte do tempo o seu violino, fazendo dele uma versátil caixa de possibilidades, ora com o arco ora com as suas mãos que usava para dedilhar as cordas, criando pequenas sequências rítmicas de vibrações ressonantes. Usou ainda um sehtar (instrumento de cordas iraniano) e uma guitarra, expandindo-se assim o leque de sons que já apenas com o violino nunca seria pequeno.

Tanto Kang como Jessika foram comunicativos, explicaram pequenos pormenores da sua música e fizeram as pessoas rir com a sua boa disposição. A curta distância que separou os artistas do público permitiu adensar a atmosfera de proximidade entre quem faz e quem ouve – como uma pequena sala de estar ou um estúdio familiar onde as pessoas se sentam pelo chão e recebem diretamente o que está a ser criado. Com dois nomes tão importantes e carregados de experiência como Kang e Kenney pouco podia falhar e nada falhou. Uma hora de contemplação, apenas com espaço para o requinte musical que já se esperava.”

David Alves in Mescla Sonora

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