Gojira 1954

Já que o blog tem tido mais cinema nos últimos tempos, aqui vai um pequeno post com uma descoberta sonora recente num filme. Ontem vi pela primeira vez o Godzila (Gojira em japonês) original – o filme que deu origem a todo o fenómeno (doentio e sem sentido?) que se seguiu. Para minha admiração, os efeitos sonoros das cenas em que aparece o dito “monstro” são mesmo muito bem conseguidos e bastante experimentais para a época (falámos de 1954).

Para minha sorte, alguém compilou alguns dos rugidos do filme original no youtube, e podem verificar aqui (ouvir em volume máximo):

Qual Masonna ou Keiji Haino……

E ainda resultam melhor quando combinados com as orquestrações da banda sonora, por exemplo na sequência dos créditos iniciais onde o noise dos rugidos distorce (e “desloca”) o tema principal interpretado em cordas.

O que dizer do filme em si: a única coisa que quero mencionar é que me parece mais uma das tentativas subliminares dos japoneses em por um lado colectivamente enterrarem a bomba e os seus efeitos e por outro lado revivê-la metaforicamente. Se alguém aqui já foi ao Japão e especialmente a Hiroshima, com a mínima perspicácia, saberá do que estou a falar.

Comentários

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  1. Rodolfo

    bem, nunca fui ao japão mas já percebi (e é amplamente discutido por essa interweb fora) que os filmes desse tipo (godzillas, pterodáctilos mutantes e afins) são uma catarse relativamente à "questão hiroshima/nagasaki".

    abaixo segue um texto interessante sobre o tema.

    http://www.historyvortex.org/SymbolismGojira.html

  2. Rodolfo

    (disclaimer) depois de ler o meu comentário fiquei com a ideia que poderia soar pomposo… não era essa a ideia ok?

  3. Luis

    Sem querer soar pomposo “de volta” e apesar do texto que mencionaste ter o seu interesse (e provavelmente até estar perto de descrever alguns dos objectivos reais do realizador) mencionava no meu comentário algo muito mais profundo (e subliminar) que está presente na mentalidade japonesa, a meu ver, e este filme é mais uma ilustração de tal.

    Tudo nasce de uma dualidade: por um lado o desejo de eliminar a contextualização histórica da bomba e os seus efeitos – eliminar o trauma da origem – e por outro lado a sua re-introdução metafórica no quotidiano, quase banal, para nunca ser esquecida (e as razões deste segundo ponto já são mais difíceis de entender, mas também se podem especular). O filme na sua totalidade acaba por operar segundo esta dualidade: a bomba ou bombas que deram origem ao Godzila nunca aparecem mas re-surgem na figura do mesmo (e aqui liga ao texto que mencionaste). E depois se quisermos também podemos encontrar sinais desta dualidade em pormenores mais específicos do filme – por exemplo, são os japoneses que querem eliminar o Godzila (eliminar a bomba e os seus efeitos) mas por mais que o tentem abater ele regressa (e vai regressando em filmes consequentes) e acima de tudo prevalece (já que é uma figura quase mitológico que já se infiltrou no consciente de todos – ver as cenas inicias na ilha e as histórias dos velhos). Outro exemplo da negação do contexto específico é a cena onde os políticos tentam votar numa decisão para esconder do público geral qual foi a verdadeira origem do Godzila.

    Basicamente é possível encontrar muitas cenas que vão de encontro a esta dualidade. Mais, o filme foi criado com o objectivo do entretenimento, contribuindo assim para a tal banalização quotidiana da bomba.

    Outro ponto que me parece importante no final – e quem sabe mais deliberado até – é a militarização das cenas. Como se sabe, o Japão foi desmilitarizado após a Segunda Guerra, e toda a presença militar no filme (há soldades, tanques, aviões, canhões, navios, etc) não parece inocente. Mas também não é óbvia a leitura: estará só a exorcizar tal facto? Estará a tentar vender uma imagem distorcida da realidade da altura seja porque razão for? Estará a chamar a atenção para o facto de o Japão naquela altura não possuir uma capacidade militar que o impediria de combater uma ameaça “externa” maior?

    E quando me referia a Hiroshima – se lá forem actualmente vão reparar que existe uma grande descontextualização da bomba – fica a sensação que caiu lá por devir divino para grande infelicidade dos japoneses. Mas por outro lado ela vai re-surgindo pela cidade, de uma forma intrusiva mas ao mesmo tempo banal, por exemplo na forma de uma fonte em forma de cogumelo ou uma ponte com pilares em forma de bombas, etc.

  4. ::Andre::

    Sim, após este complemento o tópico faz ainda mais sentido.

    Que realizadores/ filmes japoneses consideras como obrigatórios?

  5. Luis

    Hey André,

    Isso é uma questão para discutir num café, e não por aqui ;)