Haino-san

De todos os músicos japoneses que conheço, Keiji Haino é o mais extraordinário. Trata-se de uma figura tão vital e fundamental naquilo que representa que a verdade é que pouco interessa a sua nacionalidade. Criou e faz parte de um universo muito próprio onde só ele o habita.

Apesar de bastante activo desde os setentas, o seu primeiro disco é editado em ’81, mais de 10 anos depois de ter começado a tocar ao vivo. Tempo semelhante a ver a luz do dia demorou o primeiro Fushitsusha, essa instituição e talvez o meu projecto preferido de Haino-San. Foi a partir de 1990, coincidentemente o ano 1 de Heisei – o início da nova era após a morte do imperador Hirohito, que começou a editar os seus trabalhos demonstrando uma prolificidade invulgar.

E tudo tudo o diferencia: a sua visão singular no que corresponde à música, a diversifidade das suas composições, a maneira como as interpreta… Curiosamente, tanto com Michel Henritzi como Peter Brötzmann, motivados pelo impacto que tem nas pessoas (não é tanto uma influência directa, é mais uma inspiração certamente), surgiram conversas interessantes sobre ele. Brötz, que partilhou o palco diversas vezes, dizia, aquando de um almoço à beira-mar que nunca me vou esquecer, que ia dar por terminado o Chicago Tentet completando a lógica de seguida ao afirmar o desafio que era subir ao palco com alguém como o japonês, que era esse tipo de momentos que o motivavam.

Aborda a guitarra de forma única, pessoal, determinada. Não há mais ninguém a tocar assim tão insossegado e ofegante, o próprio som emanado daquelas seis cordas da sua Gibson SG parece algo inantigível por qualquer outro ser. Gera um calor tão intenso que não só se queima a si mesmo como conduz todos aqueles que o acompanham a segui-lo entre as chamas do feedback.

A sua música é difícil de definir, tem um grande impacto no momento em que a ouvimos e torna-se indelével. Toca o que quer, toca sempre o que quer. Essa forma egocêntrica de estar perante o mundo faz parte. É certo que não quer saber se gostamos dele ou não, apenas não quer que o interpretemos mal. Acho que isso o insossega e esse insossego, essa busca pessoal de complexidade e intensidade fulminantes será o bálsamo para a sua alma.

Um poço de trabalho, nem aos 60 anos abranda um pouco e 2012 provou-o: o regresso completamente inesperado dos Fushitsusha com dois (!!) discos e duas colaborações com Jim O’Rourke, Stephen O’Malley e Oren Ambarchi. Para esta semana, recomendo-vos os quatro.

Fushitsusha – Hikari to Nazukeyo [Heartfast 2012]
Fushitsusha – Mabushii Itazura Na Inori [Heartfast 2012]
Keiji Haino, Jim O’Rourke, Oren Ambarchi ‎- Imikuzushi [Black Truffle 2012]
Nazoranai – Nazoranai [Ideologic Organ 2012]

Comentários

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  1. Pedro Teixeira

    O penúltimo parágrafo deste texto resume bem a ideia que eu tenho do Haino. Nem a sua faceta mais impenetrável deixa de transparecer uma entrega e honestidade total. Estivesse eu mais perto de Lisboa e não teria pensando duas vezes em vê-lo quando passou por lá este ano, independentemente das reservas que o formato do concerto pudesse causar.

    O Imikuzushi (desses o único que ouvi) é uma bomba, ainda que audições exaustivas como esta não sejam para qualquer altura – e numa primeira impressão o novo do trio não parece desiludir.

  2. André

    Concordo contigo, se estás por perto não perdes um concerto do Haino independentemente do formato, mas ao mesmo tempo vê-lo sem guitarra, instrumento com o qual viaja num universo muito próprio, é um bocado agridoce.

    Fala-se mais no Nazoranai por aí, mas confesso que me inclino para o Imikuzushi (pelo menos tem rodado mais vezes).

  3. Luis

    Vê-lo sem a guitarra pode até ser por vezes agridoce. Mas os discos com a sanfona (especialmente o primeiro Twenty-first Century Hard-y Guide-y Man de 95) são demolidores. E a voz, seja com a guitarra nas mãos ou não, também me parece fundamental para aceder ao lado mais primitivo e instintivo da sua forma de tocar.

    O concerto em Serralves em 2006 foi interessante pelos vários momentos diferentes que teve em vários instrumentos. E quando parecia que todo o som já estava saturado e preenchido lá apareciam novas camadas não se sabe de onde.

  4. S.Quartin

    O Imikuzushi é precisamente o único que ainda não ouvi. Vou seguir a recomendação e colmatar essa falha!

  5. André

    Deve ter sido especial, Luís, devo ter sido especial. Se te lembrares de mais alguma coisa, partilha connosco.