“Hi, this is Ricardo from Loud!”

NEUROSIS
Escondidos Na Luz

Dizer que «Honor Found In Decay» é um dos discos mais aguardados de 2012 é como dizer que os Neurosis são uma banda importante: é muito pouco. São, inquestionavelmente, uma das forças motrizes da música extrema há mais de duas décadas, expandindo os seus limites a cada novo trabalho, e desbravando caminhos que virão a ser percorridos por hordas de seguidores. Embora sublinhem que a unidade do grupo será sempre a sua maior força, as suas duas faces mais visíveis são Scott Kelly e Steve Von Till, precisamente quem conversou com a Loud!, em exclusivo nacional, sobre «Honor Found In Decay».

Por Ricardo S. Amorim

De que forma é que «Honor Found In Decay» representa os Neurosis e o seu lugar no mundo actual?
Steve Von Till: Sendo o nosso novo álbum, é a peça musical que mais nos inspira e consideramos ser o mais longe a que chegámos na nossa evolução musical. Para uma banda como nós, isso é o mais importante: saber que o nosso melhor trabalho é o mais recente, que quando nos juntamos criamos o nosso mais vital, inspirador e emotivamente complexo trabalho até à data. Temos de evoluir e mover-nos para novos e mais profundos territórios, não nos permitirmos estagnar. Aprendemos com o passado e quebramos qualquer barreira que exista em direcção a um novo território e continuamos a fazer isso, álbum após álbum. Como nos vemos no mundo actual? Acho que não nos cabe a nós aferir sobre isso, somos apenas uns gajos a tentar encontrar sentido no mundo e a tentar encontrar o seu lugar, e a forma como fazemos isso é através da música. A nossa música é algo de extremamente importante para nós e percebemos que também é importante para outras pessoas, mas isso é apenas um bónus. Em primeiro lugar, tem de nos mover a nós pois é como sobrevivemos e lidamos com as questões mais pessoais que temos. O que a nossa música representa para qualquer outra pessoa é algo que já escapa completamente ao nosso controlo.

E de que forma o título representa o álbum e o que pretendem transmitir com ele?
SVT: O título pode ser interpretado em múltiplos níveis. Não escrevemos discos conceptuais nem temos qualquer tema intelectual que dite qualquer um dos nossos álbuns mas toda a banda converge em certos elementos e certos temas, que dizem respeito a questões pessoais e espirituais, meditação e contemplação do nosso lugar no universo, usando metáforas maiores para lidar com assuntos mais pessoais. Queremos manter tudo poderoso, tudo puro. Não existe uma história para este título, não existe um significado apenas, tudo está sujeito a diferentes interpretações individuais. Para mim, posso dizer que o último estado de todas as coisas, com o tempo, é a decadência. Tudo ficará decadente com o tempo, sejam elementos da natureza, humanos ou sociais, como relações pessoais. Famílias, comunidades, cidades, países ou economias, todas estas coisas entram em decadência, até mesmo o sol. Quando pensamos na vida emocional dos seres humanos, quando chega a decadência chega também uma situação de crise. Quando tudo se desmorona à sua volta é que uma pessoa revela quem realmente é, quais as suas verdadeiras cores. É nestes momentos que sabemos quem está do nosso lado e quem mantém a sua palavra. Isso representa Neurosis pois já passámos por muita merda em 27 anos e conseguimos superar tudo e continuar juntos. O símbolo na capa, com as flechas, representa isso também. A unidade dentro de um grupo, que é muito mais forte que o indivíduo. Como disse, não há um tema geral no álbum mas um sentimento que o une.

Já que mencionas o artwork, o mesmo reflecte um lugar, talvez um abrigo de um nómada, alguém que procura algo…?
SVT: É a tua interpretação. Não temos uma história e não queremos ditar nada. Sabíamos a emoção que queríamos que esse lugar tivesse. É óbvio que esta pessoa está isolada mas não sabemos porquê. Esta pessoa está a meditar sobre algumas questões espirituais, tem algumas oferendas xamânicas, lê obsessivamente diários e apontamentos e nem sequer sabemos em que período histórico isto acontece, se agora ou há 50 anos atrás. Não sabemos o motivo do isolamento, se foi por escolha ou forçado, mas sabemos que há uma justaposição de elementos contrastantes: o símbolo da unidade dentro do grupo e o isolamento; a solidão e a vontade de comunicar com o exterior, pois vêm-se equipamentos de comunicação. Está cheio de contradições e paradoxos e creio que ilustra bem o álbum e cria o ambiente certo para alguém se sentar e ouvir o disco, ler as letras e entrar no espaço mental certo.
Scott Kelly: A capa representa o núcleo da sua alma. Ele está a tentar ligar-se ao resto do mundo mas talvez não esteja ninguém do outro lado.

E, enquanto banda, identificam-se com isso?
SK: Tenho a certeza que não existe ninguém que nos compreenda por inteiro, acho que isso é praticamente impossível. Mas não estamos insatisfeitos com a ligação que fazemos com as pessoas. Sei que há muita gente que se sente tocada pelo nosso trabalho, e respeitamos e apreciamos muito isso. Falo mais da nossa visão artística e do que poderá vir a ser um dia. Somos demasiado independentes, por isso pode fazer algum sentido o paralelismo com a capa, mas acho que fazemos parte de algo.

E acham que, de certa forma, poderão ser vistos como líderes espirituais? Muita gente cita Neurosis não apenas como uma influência musical, mas como uma entidade de importância maior nas suas vidas.
SK: Não nos vemos como líderes espirituais de nada nem ninguém. A espiritualidade de cada um não precisa de líderes, é algo que se encontra e se desenvolve individualmente na sua própria interpretação. Nunca desejaríamos guiar alguém fosse por que caminho fosse, cada um precisa de descobrir o seu caminho. E a nossa música é a nossa forma de, individualmente, encontrarmos também nós esse caminho.

Mas não achas que as pessoas podem despertar para a espiritualidade através da música e da arte em geral?
SK: Sem dúvida que sim, isso aconteceu comigo. E se acontecer isso a alguém através da nossa música, fico muito honrado. Resta-me dizer “obrigado e fico feliz por ter estado lá para ti” a essa pessoa. Sei o quanto isso significou para mim.

Há uma frase no segundo tema, «At The Well», que não só é das frases mais fortes que ouvimos dos Neurosis como é completamente representativa da banda: “In a shadow world, we hide in light”.
SVT: Sim, concordo com essa análise. É uma frase interessante e que surgiu espontaneamente. Estávamos a escrever esse tema, que desenvolveu uma parte final mais intensa e por vezes as músicas ganham vida própria. Escrevi a letra das partes principais mas percebemos que fazia falta a voz do Scott num padrão final repetitivo, e as palavras que lhe saíram da boca foram “in a shadow world”. Depois o Noah ouviu algo nesse espaço e acrescentou “we hide in light”, compondo a frase de uma forma perfeita.
SK: São coisas que nos acontecem cada vez mais frequentemente, tudo se compõe de forma natural e encaixa como tem de ser. É uma frase muito forte e que se aplica a múltiplos níveis daquilo que fazemos.

Grande parte das letras fazem referência a um espaço, um lugar onde se desenvolvem, seja uma montanha, um rio, um oceano, mas sempre com o elemento da natureza presente. É uma referência consciente?
SVT: Absolutamente, mas nem sempre é a natureza por si só. Acontece que a natureza permite as mais poderosas metáforas para a complexidade das emoções humanas. Pode dizer-se que reflecte a nossa ligação com o mundo exterior e o nosso ambiente mas, mais frequentemente, as nossas letras falam de um mundo interior, da alma. Mas de que forma poderemos falar disso? Não podemos, não há linguagem profunda o suficiente para falar desses temas, pelo que usamos a natureza como metáfora.

Muitas vezes vos perguntam as influências musicais que tiveram no início da carreira, mas questiono se têm também influências literárias?
SVT: É difícil responder pois as nossas letras são muito abstractas e não sei se fomos influenciados por um estilo em particular. É como a música: podemos dizer quais foram as nossas influências mas há milhares e milhares de peças musicais inspiradoras por aí. Todos somos leitores razoáveis e há tantos autores e livros que lemos ao longo dos anos que é difícil enumerar influências. Pessoalmente, posso citar Jack London, Cormac McCarthy ou Yeats, e sou apenas um elemento. Certamente que ler pode inspirar a escrever ou a fazer música, mas se há coisa que nos inspira é a vida. A arte não é inspirada pela arte, é inspirada pela vida.

«Given To The Rising» já saiu há cinco anos. A página de «Honor Found In Decay» estava completamente em branco ou já teria alguns esboços?
SVT: Nunca nos sentamos e decidimos escrever um disco, nem acontece apenas num determinado período de tempo. Algumas ideias já vêm da era do «Given To The Rising» mas ainda não se tinham revelado. Decidimos queimar tudo mas plantando algumas sementes nas cinzas a ver o que nascia ali. O nosso maior obstáculo é o tempo juntos, pois vivemos todos muito longe uns dos outros e tocar envolve viajar de avião, e todos temos famílias, empregos e agendas complexas. Há ideias que vamos tendo em conjunto, depois cada um faz o seu trabalho e há um desenvolvimento das mesmas até à próxima vez em que estamos juntos. Ou há uma ideia que um elemento tem e partilha com os outros, que a vão trabalhando para depois gravarmos num ensaio, pois as ideias individuais são sempre bastante fracas em relação ao resultado que temos como colectivo. Ninguém apresenta uma canção acabada mas também nunca acontece da mesma forma em cada disco. O caos faz parte do nosso método normal.

Este disco parece ter mais espaço que o «Given To The Rising», que era muito negro e claustrofóbico. Apesar deste ser um disco em que se nota algum desespero, parece ter alguma esperança, uma luz ao fundo do túnel.
SK: Concordo. Sonicamente é mais expansivo e tem mais espaço. Nada é pré-concebido, foi assim que as coisas tomaram forma e a razão pela qual acho que este é o nosso melhor disco é por ser tão expansivo e ter tantos tipos de sons diferentes e energias. Acho que é o nosso disco mais variado, em abordagens e soluções. Ainda tem esse desespero e uma natureza feral mas encontrámos novas formas de canalizar isso, bem como a beleza. Sempre arranjámos maneiras de justapor o peso com o belo e integrá-los, por vezes, no mesmo momento. Isso contribui para a fluidez orgânica do disco pois não há apenas luz e trevas, há toda uma série de espaços cinzentos. Mas encontramos sempre esperança na nossa música, mesmo nos momentos mais negros, pois, enquanto autores, temos uma forma de expurgar essas emoções.

É sempre ingrato, e especialmente no caso dos Neurosis, destacar uma performance individual, mas creio ser justo referir o trabalho do Noah Landis neste disco.
SK: Concordo em absoluto. Os meus momentos preferidos no álbum são quando os sons do Noah se destacam. Quando temos uma parede espessa de música e aquele som vem para a frente, é ele que dita as emoções. Dá arrepios na espinha e é um trabalho que demorou anos e anos a desenvolver. As pessoas não têm noção do alcance do seu trabalho e da forma como ele integra o sampler e os teclados na nossa música. Não se contenta a tocar os temas no teclado, ele manipula tudo e capta sons orgânicos que incorpora na música.

Desde o «Times Of Grace», em 1999, que têm trabalhado com o Steve Albini. Esta é, portanto, a fórmula ideia para captarem a vossa música.
SVT: Sim, e o Steve é engenheiro de som, não é um produtor. Na realidade, nunca trabalhámos com um produtor e se algum é creditado em discos anteriores, foi por ignorância nossa. Não trabalhamos com produtores pois não queremos ninguém a dizer-nos o que fazer com a nossa música, pois ninguém conhece a nossa música, apenas nós. Não temos muito tempo e estamos completamente satisfeitos com o Steve Albini, que é um dos melhores engenheiros do mundo. Sabe como captar uma banda numa sala, sem merdas, com a maior fidelidade possível. Passámos muitos anos a encontrar o nosso som, só precisamos de alguém que o capte, não que interfira com ele. Espanta-me como é que há bandas que entram em estúdio e passam um dia, ou mais, para “encontrar” o som de guitarra. Não se perde um dia nisso, o som sai do amplificador, qual é o problema? Só é preciso que alguém meta os microfones certos nos sítios certos e a banda toca. Tocamos ao vivo, como banda, e fazemos overdubs das vozes e algum feedback ou ruído de guitarra, é isso. Demorámos dez dias, e foi muito, pois o anterior levou apenas seis. Isso de gravar o baterista primeiro, depois juntar o baixo e as vozes… isso não é uma banda, isso é uma colagem clínica de diferentes elementos. O Steve permite-nos gravar rapidamente e sem qualquer pressão. Se há um problema ele sabe resolvê-lo no momento pois já gravou, literalmente, milhares de discos.

O ciclo de «Given To The Rising» envolveu um maior número de concertos do que aquilo que vinha sendo hábito para vocês na última década. Tiveram saudades da estrada?
SK: Pessoalmente, ando na estrada muito mais do que o resto do pessoal devido aos meus concertos a solo, mas posso dizer que ainda temos muita estrada dentro de nós. Estamos muito confortáveis na estrada e é um sitio em que gostamos de estar, mas na realidade gostamos mais de estar em casa com as nossas famílias. É mais importante para nós e o equilíbrio é essencial para conseguirmos que as coisas funcionem. Mas tivemos vontade de voltar à estrada e mostrar o nosso trabalho, ir a sítios onde não íamos há 15 anos, etc..

E tocaram dois dos novos temas na vossa última tournée europeia. De que forma é que isso ajudou a cimentar ideias?
SK: Não sei, não tenho bem a certeza. Tocámo-las porque estavam prontas e gostamos sempre de tocar material novo. Achámos que fazia sentido e tocámos, como já fizemos no passado. A única vez em que tivemos um disco inteiro pronto antes de o gravar foi no «Through Silver In Blood», em que fizemos uma tournée inteira a tocar esse disco antes sequer de o gravar, o que foi uma experiência interessante. Mas os temas que tocámos no ano passado acabaram por ser gravados exactamente como os tocámos, ficaram inalterados.

Na vossa última tournée recuperaram dois temas precisamente desse disco, e que não tocavam ao vivo há muitos anos. Refiro-me a «Locust Star» e a «Through Silver In Blood». A que se deveu esta, tão salutar, decisão?
SK: Tem de haver lugar para eles. Compomos o set list da mesma forma que compomos a ordem dos temas num disco, no sentido de que queremos invocar determinadas emoções e há uma ordem própria para isso. Se há um tema antigo que achamos que se adequa, levamo-lo para a sala de ensaios e vemos se ainda funciona. Se nos soa forçado, de qualquer forma, ou se algum de nós não se sente à vontade, simplesmente não o tocamos.
SVT: Achamos que o nosso material tem um ciclo de vida para nós próprios. A dada altura, a música começa a ser algo do passado e temos de seguir em frente. Tentamos encontrar alguns temas antigos para inserir no alinhamento dos concertos, e experimentamos tocá-los num ensaio para logo decidirmos que não o queremos fazer. Estão mortos, não os sentimos. E só fazemos música para nós próprios, não somos o tipo de banda que ande ai a tocar os temas preferidos das pessoas. Se não os sentimos, estão mortos. E mesmo os que tocámos no ano passado, assim que voltámos a casa decidimos não os voltar a tocar tão cedo.

Como é que podem dizer que um tema como «Through Silver In Blood» está morto?
SVT: Ainda o sentimos quando o tocámos no ano passado, mas só se pode fazer determinada coisa um certo número de vezes, depois torna-se um cliché e não queremos que isso aconteça. Por isso posso garantir que não vamos fechar os próximos concertos com esse tema [risos].

Mas esse é um disco muito considerado pelos fãs e que, a dada altura, evitavam tocar ao vivo.
SK: Levou-nos muito tempo a voltar a esse álbum, pois estivemos mais tempo na estrada com esse disco do que alguma vez tivemos, e foi um período muito intenso a vários níveis. Quando pensámos nisso experimentámos esses dois temas e sentimo-los, achámos que fazia sentido tocá-los.

Enquanto banda, a vossa imagem é a de um colectivo sério, de caras fechadas. Como são os Neurosis por trás disso, também se riem como as outras pessoas?
SK: Claro que sim, somos pessoas como todas as outras. Rimos e choramos como toda a gente. A nossa música é apenas uma, embora grande, parte de quem somos. As nossas personalidades reflectem-se em muitas coisas que fazemos mas ainda nos rimos. Amamos os que nos são próximos e gostamos muito uns dos outros. Esta banda existe há 27 anos por isso, sempre que temos oportunidade de estar juntos, é uma pequena vitória. O simples facto de ainda estarmos vivos para fazer isto é uma bênção. Mas quando chega a altura de tocar ao vivo ou de compor ou gravar, é sério.

Comentários

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  1. Sérgio Rodrigues

    Um álbum que realmente toca no fundo da alma. Magnífico.
    \m/

  2. Ricardo

    Estou a gostar muito da rubrica “Hi, this is Ricardo from Loud!”. Descobrem-se mais umas coisas e confirmam-se outras de pessoas que gostamos muito de ouvir.

    Ao mesmo tempo que saiu o “Honor Found In Decay” tive a feliz coincidência de ter acabado de ler um livro chamado “Man’s Search for Meaning”. Escrito por um judeu austríaco, psicólogo e psicoterapeuta, o livro relata a sua sobrevivência num campo de concentração nazi e analisa-a através do seu olhar de psicólogo.

    O título do álbum, e algumas músicas, mescla-se muito bem com algumas partes do livro, nomeadamente:
    “Suffering is an ineradicable part of life even as faith and death. Without suffering and death human life cannot be complete. The way in which a man accepts his fate and all the suffering it entails, the way in which he takes up his cross, gives him ample opportunitty – even under the most difficult circunstances – to add a deeper meaning to his life. It may remain brave, dignified and unselfish. Or in the bitter fight for selfpreservation he may forget his human dignity and become no more than an animal”

    “He will have to acknowledge the fact that even in suffering he is unique and alone in the universe. No one can relieve him of his suffering or suffer in his place. His unique opportunity lies in the way in which he bears his burden.”

    “It is spiritual freedom – which cannot be taken away – that makes life meaningful and purposeful”

    É um grande livro, lê-se bem e é barato.

    Juntos, o livro e o álbum, são bons companheiros de cabeceira e de vida sobretudo no momento económico, social e político que estamos a viver.

    Tinha curiosidade de saber se algum deles já tinha lido o livro e se isso ou outras coisas influenciaram a temática do álbum e das músicas (a situação económico, social e político dos EUA não deve ser alheia de certeza)

    E vocês conseguiram relacionar o álbum com algum livro, filme ou experiência pessoal que tenham tido?