JKB

Até há uns anos atrás, acreditar na possibilidade de ver Godflesh ao vivo era daqueles sonhos que, entre copos, se partilhavam apenas com amigos. Entretanto, já os vi 4 vezes e na próxima sexta-feira, lá por volta da meia-noite, serão 6 e, sinceramente, nunca demais e sempre sempre especial. Também já vi Jesu mais do que uma vez, JK Flesh…

Justin Karl Michael Broadrick é um génio, não creio que precise de explicar a quem lê estas linhas, mas agora que está prestes a visitar-nos, acho que é um bom momento para recuperar a longa e ecléctica carreira de um dos melhores músicos de sempre:


Em 1982, um JKB ainda miudinho aventura-se como FINAL. Andy Swan, um amigo, acompanhava-o neste projecto e, se acham que há bandas nos tempos das internets a editar em demasia, o que dizer das cerca de 50 cassetes que editou no espaço de um ano? Final é hoje um dos seus pseudónimos mais activos e talvez o menos conhecido.


Dois anos depois, ’84 portanto, as sementes dos Godflesh são lançadas. A banda, cujo nome foi retirado de um tema de Killing Joke, chamava-se FALL OF BECAUSE. G. Christian Green e Paul Neville completavam o trio e foi aqui que alguns clássicos como Merciless ou Life is Easy tiveram as suas origens.


Após um encontro numa feira local na sua terra natal – Birmingham, Justin juntava-se a Nicholas Bullen e Mick Harris nos… NAPALM DEATH, pois claro. Ao longo de 3 demos, os três definiram o seu som até que gravaram o clássico e seminal Scum. Hoje sabemos que o disco mudou a face do metal mais extremo, mas sentiu que tinha feito tudo o que pretendia com o projecto e saiu ainda sem o mesmo estar terminado.

Curioso, impressionante até, que, anos depois, o trio que faz o tema em cima é o mesmo que faz isto:

Sai então dos Napalm, pega nas baquetas dos HEAD OF DAVID durante uns tempos, telefona a GC Green e, usando os tais temas dos Fall of Because como ponto de partida, os GODFLESH nascem. Mais uma banda lendária no currículo de Justin Broadrick, mais uma banda que muda o panorama musical, mentes até. Incrível.

Recusa convites para se juntar aos Faith No More, aos Danzig, vê os Metallica a roubarem ideias (Kirk Hammet era super fã assumido), Joe Satriani a elogiá-lo, etc etc mas Justin continuou sempre na sua. Sossego, era tudo o que queria, não é por acaso que os seus projectos são praticamente solitários, que vive no meio das montanhas.


O produtor londrino Kevin Martin (The Bug, King Midas Sound, etc) promoveu o primeiro concerto dos Godflesh na capital britânica e desde então que surgiu uma amizade entre os dois. Eventualmente, Justin contribui para a sua banda – os God – e em ’91 surge o primeiro disco do projecto que os une: TECHNO ANIMAL. Industrial, noise, hip-hop, dub… ainda hoje soa a fresco.


Os Godflesh dão por terminada a sua carreira com o disco Hymns (que tinha o ex-Swans Ted Parsons nas baquetas) e cujo último tema se chama JESU… Mesmo conhecendo a história, não assisti ao aparecimento de nenhum dos projectos que menciono até aqui. Mas sim, lembro-me exactamente da primeira vez que ouvi o EP Heart Ache. Dois temas apenas, dois temas que rodaram e rodaram até à exaustão. É o seu projecto mais etéreo, melancólico, quase que me atrevo a dizer “optimista” (de uma forma céptica).


Talvez nem Justin conheça a sua discografia completa tantas que são as solicitações para remixes, trabalhos de produção, projectos que deu uma mão aqui e acolá. Talvez. No entanto, um dos meus preferidos são os GREYMACHINE que o une a Aaron Turner (ex-Isis), ao seu companheiro dos Jesu Diarmuid Dalton e o ex-Head of David David Cochrane. Disse em 2009, neste mesmo blog, “assalta-nos o corpo e corrói-nos o cérebro com o seu noisecore e psicadelismo industrial.”


Há imenso para conhecer no que toca ao JKB, este será apenas um resumo mal feito. Lembro-me agora que não mencionei os BLOOD OF HEROES ou WHITE STATIC DEMON, por exemplo, ou o disco com a Jarboe. Apesar dos seus 43 anos, insisto: é uma longa e ecléctica carreira de um dos melhores músicos de sempre, há sempre algo para conhecer, explorar. No entanto, Posthuman é um dos discos que mais roda desde a sua edição no ano passado. Justin assina aqui como JK FLESH, ou seja, o alias com o qual assinava nos tempos Techno Animal. O som é uma combinação de todos os estilos a que nos habituou. Faz sentido a seguir a Greymachine, faz sentido de madrugada… Não entendo como nunca tinha escrito ou partilhado algo sobre este disco aqui no blog, distracção imperdoável.

2012 foi também o ano em que se junta ao mestre Matthew Bower e Samantha Davies, ambos dos Skullflower, e o resultado é VALLEY OF THE FEAR. Não vou escrever sobre algo que a Susana Quartin já fez tão bem (podem ler aqui), mas vou definitivamente recomendar outra vez.

Estamos em Maio de 2013 e foi como JK FLESH, num split com Prurient, que a Hydra Head se despede das edições. Os três temas são fantásticos, mas Obedient Automaton está certamente no top 5 da minha playlist destes primeiros cinco meses.
Enfim, carreira sublime e essencial de um visionário que nos deu e continua a dar tanto. É verdade que amanhã e sexta os Godflesh passam por Portugal, mas é muito mais do que um concerto e todos sabemos disso. É História a fazer-se, são histórias a guardarem-se na mente e no coração, é a responsabilidade e prazer de receber alguém como Justin Broadrick. Perdão, “alguém como” não, JKB é mesmo único.

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