John Estes, o dorminhoco

Estávamos em 1961 e muita coisa estava para acontecer ao mundo, tudo o que era/ é cultura ocidental estava prestes a implodir. Em Brownsville, Tennessee, o cineasta David Blumenthal, que estava na zona a filmar um documentário sobre a migração negra para o norte, tropeça numa lenda do Blues: Sleepy John Estes.

John Adam Estes – o “sleepy” veio do seu gosto por dormitar várias vezes ao dia – foi um songwriter, compositor e poeta nascido no Tennessee, Estados Unidos, não se sabendo ao certo se a 25 de Janeiro de 1899 ou 1904. Gravou algumas canções e partilhou alguns palcos nos inícios dos anos vinte, mas até esse momento da descoberta, Estes fez de tudo e mais alguma coisa para se ir mantendo vivo. Aliás, quando isso aconteceu e já praticamente cego, muita gente não queria acreditar assumindo logo à partida que este Sleepy não passava dum impostor. Mas não, era mesmo ele.

O seu timbre “chorão” emanando uma sensação de vazio e desespero; a sua abordagem à guitarra; as suas letras autobiográficas baseadas em ocasiões da sua vida ou pessoas que conhecia na sua terra de Brownsville como o advogado local – Lawyer Clark Blues – ou o mecânico – Vassie Williams’ Blues – por exemplo; o facto de ter sempre uma banda a acompanhá-lo tirando daí novas texturas a um estilo conhecido por ser solitário…

Deixa o mundo dos vivos em 1977 enquanto preparava uma tour europeia, mas o seu trabalho nunca será esquecido mesmo que, quando se fala em blues, o seu nome não seja o mais consensual. Foi um dos verdadeiros mestres da sua linguagem. Viveu na pobreza e limitado fisicamente e mesmo assim foi capaz de transformar a sua condição e as suas experiências em Arte. R.I.P, Sleepy.

Por aqui roda “I Ain’t Gonna Be Worried No More”, vinte e três canções gravadas entre 1929 e 1941, e hoje não preciso de mais nada.

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