John Fahey is a Big Fatso


Cerca de 150 pessoas juntaram-se na Latvian Society em Filadélfia, no passado sábado, para comemorar o lançamento póstumo do novo disco de Jack Rose, Luck in the Valley, e ao mesmo tempo evocar a memória do guitarrista. A noite foi de celebração e não de pesar.

O alinhamento era apetecível e as 5 horas de concertos correram rapidamente. Deixo aqui algumas impressões pessoais dos concertos, bem como algumas fotografias, sem entrar em muitos detalhes.

Os dois primeiros sets foram aborrecidos demais. Abriram a noite os Megajam Booze Band, a ocuparem todo o palco com 3 guitarras, 2 baixos, bateria, saxofone e harmónica numa jam em alto volume de rock n’ blues a descambar em momentos para cada um dos lados. Animaram um pouco a malta – mas a mim não! Porque raio há-de alguém programar numa noite de 8 concertos a banda que mais alto toca em primeiro lugar? Os ouvidos ficaram logo fritados para o resto da noite.

Seguiu-se Meg Baird, acompanhada em palco por Chris Forsyth. Não tenho paciência para isto incluindo para a sofrível versão de “I Don’t Want to Talk About it” de Rod Stewart incluída no alinhamento. Nada mais a dizer.

A primeira grande ovação da noite foi para os The Black Twig Pickers (que gravaram um disco homónimo com Rose, editado pela Klang Industries em LP e pela VHF em CD em 2009) com uma versão ragtime em violino, piano eléctrico, harmónica e washboard de Kensington Blues. Antes disso haviam já colocado todo o público a bater o pé com as suas interpretações da folk americana proveniente da Virgínia. Terminaram o set com um ragtime de velório.


Após os Black Twig entrou em cena Byron Coley, co-responsável com Thurston Moore pela editora Ecstatic Peace. Leu alguns poemas de sua autoria inspirados, dedicados ou co-escritos com Jack Rose.

Visivelmente emocionado por algumas das palavras de Coley, subiu ao palco Glenn Jones para um set curto de 4 músicas apenas, passando principalmente pelo seu álbum mais recente “Barbecue Bob in Fishtown”. Num dos temas foi (mal) acompanhado em harmónica por um músico cujo nome desconheço.


Depois vieram os Pelt, ex-banda de Rose, desta vez em versão com cinco elementos, para um set bastante mais minimal e despido que o habitual. Primeiro com as taças criaram um ambiente sonâmbulo de frequências que apareciam e desapareciam progredindo depois, subtilmente, para os gongos e címbalos. O ribombar metálico foi subido gradualmente de volume até ao limite numa espécie de descarga catártica. Quando os gongos finalmente se calaram tiveram lugar, durante alguns minutos, os sons esparsos e percussivos de campainhas e pequenos sinos. Terminaram quando o silêncio se instalou.


Seguiu-se o que me pareceu ser um dos concertos mais esperados da noite: Michael Chapman, guitarrista e vocalista britânico, e a principal influência em Rose como pessoa e músico nos últimos 5 anos da sua vida. Dos mais de 30 anos de carreira houve apenas tempo para umas 3 músicas, tocadas de forma descomprometida mas competente. Apesar de reducionista, John Fahey meets Johnny Cash foi a primeira ideia que a sua música me trouxe à mente. Uma discografia a investigar.


Para lá da meia-noite subiu ao palco uma espécie de versão expandida do Dream Aktion Trio, com Thurston Moore, Paul Flaherty, Chris Corsano, Samara Lubelsky e Bill Nace. O concerto correu tal como esperado, um free-jazz-rock com variações de volume e texturas ao longo de uns 30 minutos. Todos trataram mal os seus instrumentos mantendo a intensidade da actuação no máximo.


Para uma sala quase vazia actuaram a fechar a noite os Dr. Charles Speer & The Helix. Deixei Filadélfia no momento em que se preparavam para iniciar o concerto. Já era muito tarde, tinha tudo atrasado um pouco, e ainda me faltavam 3 horas de condução até casa.

Pelo meio de alguns dos concertos mostraram-se excertos de um DVD que sairá em breve (Março), pela Strange Atractors, sobre a música de Jack Rose e Glenn Jones. Alguns dos momentos mais aplaudidos da noite nasceram das palavras de Rose nestes excertos.

Trouxe o novo disco para casa mas ainda não o ouvi. Aviso contudo que o artwork da edição em vinil é infinitamente superior à pobre edição em CD.

E nas palavras, de memória, de um dos poemas de Byron Coley: So long Jack. Say hello to John Fahey and tell him he’s a big fatso.

Comentários

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  1. ::Andre::

    Deve ter sido uma noite especial. Amigos, músicos, fãs todos reunidos para homenagear alguém que vai deixar saudades.

    Gostava imenso de ouvir essa versão da Kensington Blues. Faz parte desse mesmo álbum? Vou procurar…

    E gostava ainda mais de ver o Flaherty ao vivo, se gostava…

    De certeza que valeu as horas de condução. Vai-nos apitando com excurssões sonoras desse lado do atlântico.