Kurt Kren


A arte marginal tem muito que se lhe diga. Há reflexões que nos atrapalham a lógica assim como questões que nem uma eternidade saberia responder. Se formos à memória da história sabemos que muitas culturas e raças foram excluídas simplesmente por serem diferentes e por não se encaixarem nos cânones vigentes.
O documentário “Reel bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People” espreme bem esse assunto – os vilões dos filmes blockbuster de Hollywood assumem, frequentemente,  o papel dos personagens “sombra” (alusão à figura dos vilões dos filmes noir em que só se via metade do rosto): os italianos são os mafiosos, os árabes os terroristas e por aí adiante. Também é difícil aceitar o que é marginal.
A arte marginal tornou-se numa ameaça por não se prostituir em becos de esquina; ela é destemida, rebelando-se contra a propaganda, e não se escraviza. A Entertete Kunst (Degenerate art) é um dos exemplos maiores de como a arte pode instalar uma verdadeira ameaça.  A prostituição da arte ultrapassa a dignidade. Ainda assim ela tem o dom da premeditação imbuída de metáforas e ficção.
O austríaco Kurt Kren (1929-1998) é um exemplo puro dessa fidelidade. Curiosamente nasce de uma união entre dois povos em choque –  mãe alemã e  pai judeu. Na década de 50 iniciou a sua carreira nos filmes experimentais filmados em 8 mm, paralelamente à sua colaboração com Konrad Bayer cujos filmes perderam-se de vista. Sete anos depois começou a filmar em 16 mm. Talvez muitos dos vídeo artistas de hoje sem saberem da existência de Kurt Kren vão, talvez, encontrar, inconscientemente, referências ao seu trabalho. Kren ajudou-nos, certamente, a preparar para grupos como Survival Research Laboratories e  Modernos Primitivos. Os temas dos seus filmes foram objectos do quotidiano – paredes, árvores, pessoas, mas manipulada de acordo com a elaboração de diagramas e gráficos que mostraram uma sensibilidade da técnica e do conteúdo. Uma das suas primeiras obras 4/61: Walls, Positive and Negative, tal como o título sugere, consegue hipnotizar qualquer espectador com uma sequência de fotografias estroboscópicas alternada em ritmos, criando, per si, uma espécie de estado onírico. 
O que este artista tem de interessante são as imagens capazes de gritar música sem na realidade ela existir. Embora apareçam numa aparente sequência desordenada, as imagens regem-se por uma partitura criada por Kren. Todos os seus filmes são registados mediante a ordem cronológica, a data de criação e a duração, 10/65 Self-Mutilation (10/65 Selbstverstümmelung, 1965). Este filme não se trata de uma provocação frente a uma câmara. Vai além de uma performance literal. Podemos ver como as obras de Kren são actuais ainda hoje. Faz mais sentido vermos o filme sem música mas a verdade é que não incomoda ao som de Arvo Pärt.

Em contraste com a sua criação original, o vanguardista do cinema experimental viveu uma vida conturbada. A exibição dos seus primeiros filmes, na Áustria, foram vaiados pela audiência e muitas pessoas abandonaram as salas de projecção chocadas. Pediram a Kren para abandonar a sala e nunca mais voltar. Os seus filmes foram confiscados pela polícia em 68. Dois anos antes participou no simpósio da Arte Autodestrutiva de Londres. A partir de 68 Kren viveu fora da Aústria e viveu muito tempo nos Estados Unidos. Chegou a dormir no carro e trabalhou como segurança no Museum of Fine Arts de Houston. Em 89 regressou à Áustria.  Kren morreu em 98, mas continua a ser um marco na história do cinema experimental. 

Comentários

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  1. Rodolfo

    não conhecia, gostei muito, obrigado.

    numa frequência semelhante (ou nem tanto)… elias merhige com o opus "begotten"

    http://www.youtube.com/watch?v=4LgLGK9-WC4

    parte 1… parece que o resto também está pelo youtube.

    não me canso de recomendar este filme para quem se interessa (mesmo) por cinema.