Masoquismo Musical – Parte Três

(continuação da Parte Dois)

VIII.
Penso estarmos agora numa posição adequada para ensaiar algumas explicações acerca deste apelo à negatividade musical, a natureza das quais tenho vindo a dissecar progressivamente.

Observo primeiramente que qualquer resposta emocional musical facilita a nossa compreensão, avaliação e descrição da expressão dessa obra; isto é um facto, sem dúvida, verdadeiro, e mesmo que dificilmente explique totalmente o ‘masoquismo musical’, não deve ser ignorado dado que representa uma sólida fonte de prazer auditivo.
Rotulemos esta recompensa de Apreensão de Expressividade.

Seguidamente observe-se o elemento aristotélico da Catarse. Em algumas circunstâncias, em virtude de uma resposta dolorosa ao que se escuta, é permitida uma “sangria” controlada de certas quantidades de emoções nocivas que afligem um ouvinte; enquanto ouve, faz o “luto” de uma maneira limitada, e portanto, em certa medida, expurga a dor real à qual estava, consciente ou inconscientemente, rendido (e sobre a qual, geralmente, não exerce controlo). Numa perspectiva catártica, a resposta emocional negativa é desejável pois conduz à saúde mental, protegendo o ouvinte no futuro através da auto-administração momentânea de doses dolorosas de vacina emocional no presente.

IX.
Já se referiu que a diferenciação entre ‘respostas emocionais’ à música e ‘emoções’ da vida real é um aspecto crucial e óbvio ligado à atenuação do conteúdo cognitivo das últimas. Uma resposta emocional musical não tem as implicações reais que normalmente pululam a sua contraparte quotidiana. A tristeza que se sente por empatia através da música não tem qualquer base na vida extramusical, não sinaliza qualquer estado psicológico adverso, não suscita padrões persistentes de comportamento, nem pressagia futuros sombrios; não se pode dar crédito, embora de forma intermitente se possa imaginar, que uma aflição assim gerada seja objectivamente existente. A tristeza musicalmente experienciada é então principalmente composta por uma concepção de um sentimento, e livre e desacorrentada das exigências da emoção real correspondente.

Estando uma resposta emocional negativa desprovida de implicações contextuais, pode-se então mais plenamente focar as sensações que a envolvem, abrindo assim o caminho para três benefícios adicionais que se poderão disfrutar ao espelharmo-nos em música obscura.

Para descortinar a primeira destas vantagens exige-se uma reivindicação um tanto ou quanto surpreendente, mas é uma sem a qual não podemos, penso eu, resolver inteiramente o paradoxo que temos vindo a abordar.

Esta alegação implica a assumpção de que qualquer afectação emotiva, divorciada de consequências psicológicas e comportamentais, é em praticamente todos os casos, algo em que um indivíduo toma satisfação: ou seja, o sentimento puro de qualquer emoção é algo que, em balanço, gostamos de experimentar. Quando os sentimentos são colocados à nossa disposição isolados, sem background, e inerentemente limitados no tempo (como são através da música), podemos paralelizá-los a uma degustação vinícola. Provando os prazeres de várias safras tornamo-nos escanções de sentimentos, saboreando os aspectos qualitativos da vida emocional para seu próprio bem.

Isto não implica, claro está, que um sentimento puro não seja ainda assim desagradável – se essa coloração não existisse dificilmente o tomaríamos como sentimento de uma emoção negativa propriamente dita – mas, no contexto isolado da resposta musical, torna-se possível saborear este sentimento pelo seu carácter especial já que estamos poupados do sofrimento adicional que acompanha a sua ocorrência na vida real. O sentimento característico e central ao desespero ou à tristeza tem um aspecto irredutivelmente doloroso, é certo, mas o inconveniente da emoção surge da crença acerca da existência de um mal real e da persistência dos seus efeitos negativos, e, assim sendo, um estado de desconforto que sabemos que não vai durar e que não decorre de nenhuma falha no nosso mundo não atestará à dor que causaria se não tivéssemos essas certezas. Quando esta crença está ausente – tal como numa resposta musical – encontramo-nos em condições de, em grande medida, apreciar os sentimentos – mesmo negativos – por si mesmos, deleitando-nos nas suas qualidades particulares a um grau suficiente para compensar quaisquer elementos de penosidade que ainda contenham. Chamemos a isto Saborear o Sentimento.

A segunda recompensa associada a respostas musicais emocionalmente negativas em virtude da sua liberdade contextual advém do acréscimo de compreensão das condições de envolvência de alguma emoção reconhecida no que se ouve. É notoriamente difícil descrever em que consiste uma emoção, mas creio ser evidente que essa capacidade pode ser reforçada por sessões musicais: estas ocasiões constituem oportunidades para examinar e introspectivamente ponderar a dimensão afectiva interior de uma emoção, cuja ideia nos é apresentada de uma maneira mais clara, indisponível a alguém preso nos espasmos de uma opressão real. Podemos assim obter uma imagem mais concisa do sentimento de angústia, não discernindo o seu total significado, mas registando mais palpavelmente a sua definição, obtendo uma melhor capacidade de reconhecimento e contemplação desse sentimento no futuro. Atesta-se aqui a Compreensão do Sentimento, uma recompensa cognitiva.

A terceira gratificação anunciada relaciona-se directamente com a ideia de dignidade e respeito que alguém tem de si próprio. É central à imagem ideal de qualquer humano a capacidade de sentir profundamente uma vasta gama de emoções, acreditando sermos capazes de ser tocados profundamente e de várias formas por ocorrências adequadas; mas, um indivíduo cujas faculdades emocionais são inactivas, rasas, ou unidimensionais aparenta-nos possuir um menor carácter. Dado que a música proporciona o sentimento associado a uma emoção negativa sem as respectivas (e indesejáveis) consequências reais, é-nos parcialmente assegurado um modo não-destrutivo para confirmar a profundidade e amplitude das nossas capacidades de sentir: uma resposta emocional negativa à música permite ensaiar os nossos motores emocionais. Embora não se opte por uma amostra de dor real para por à prova a capacidade de lidar com ela, pode-se, através da música, obter uma espécie de confirmação bem menos arriscada. Curiosamente observe-se que esta gratificação é mais naturalmente associada a emoções negativas do que a positivas; geralmente não são emoções como alegria, divertimento, ou excitação que se querem musicalmente testar, nem é a habilidade de as sentir que tem o maior peso na mente de um indivíduo. Chame-se a esta recompensa Garantia Emocional.

X.
Enumeramos até agora certas recompensas provenientes da resposta emocional negativa à música que, juntas, a equiparam a uma experiência de puro sentimento, concomitante com a ideia de uma emoção correspondente. Viremo-nos agora para as vantagens da imaginação através da identificação: um indivíduo imagina que está numa plena condição emocional, sabendo no entanto que tal não é verdade.

A primeira é de especial relevância para o paradoxo com que me tenho ocupado na medida que, contrariamente às recompensas até agora aludidas, se refere quase exclusivamente à resposta emocional musical negativa.

Se se empaticamente experienciarem sentimentos de desespero ou angústia provindos de música triste ou deprimente e similarmente considerarmos a obra como o desdobramento expressivo do desespero ou angústia de outrém, então é possível que se dê uma identificação com aquela pessoa e consequentemente imagine que somos nós mesmos que sofremos. Podemos até ficar com a impressão de que estamos a gerar essas notas de profundis como uma expressão do desespero que imaginamos estar a sentir, mas, em qualquer caso, a minha emoção imaginada é indivisível da persona musical e vai participar no destino e vicissitudes dessa emoção transmitida pelo desenvolvimento da obra.

Dado que se identifica o nosso estado emocional com aquele expresso musicalmente, é possível que se sinta que o que discorre a música seja em nós próprios ecoado, sendo isso frequentemente uma fonte de satisfação própria, especialmente quando estão envolvidas emoções desagradáveis ou difíceis.

Quaisquer emoções imaginativamente experienciadas através da música, ao contrário daquelas encontradas na vida real, têm um carácter de inevitabilidade, intencionalidade e finalidade a seu respeito; isto indubitavelmente acontece por estes conceitos estarem aparentemente interligados de uma maneira íntima e inseparável com o progresso da substância musical. Por causa da sua construção, a emoção parece muitas vezes ser resolvida, transformada, transfigurada, ou vencida no término da execução.

Ao identificarmos imaginativamente o nosso estado com aquele na música, derivamos da peça (adequadamente composta) um sentido de domínio e controlo – ou, pelo menos, compromisso – sobre essas emoções que, num contexto extramusical, seriam assaz perturbantes, e sobre as quais esperamos sair vitoriosos quando (e se) chegar a hora. Só quem realmente sinta algo numa audição, e nela se projecte, terá o direito a pensar: “esta foi a minha emoção, esta foi a forma como lidei com ela, isto é o que lhe aconteceu”; este “poder” ajuda-nos claramente a compensar qualquer desconforto adicional que derive de que qualquer achaque imaginado de melancolia, desespero ou luto. Isto é Resolução Emocional.

A segunda recompensa proveniente da identificação com uma música a ponto de imaginarmo-nos possuidores de emoções negativas reais é mais simples, e até antecedente, aquela que acabamos de discutir. Se um indivíduo encara a música como uma expressão de um estado emocional actual, é provável que sinta que esta brota de si mesmo, como se emanasse de um eu mais profundo. Assim, é muito natural que fique com a impressão de possuir um poder expressivo acrescentado – de liberdade e facilidade em externalizar e corporizar o que lhe vai na alma. Este sentido de riqueza e espontaneidade renovadas com que a vida interior assim se desenvolve – mesmo quando os sentimentos envolvidos são do tipo negativo – é uma fonte inegável de alegria: um acréscimo de Potência Expressiva. O aspecto desagradável de certas emoções em que nos imaginamos é assim equilibrado pela adequação, graça e esplendor dessa exposição artística que sentimos estar de acordo com as nossas emoções. Mesmo não sendo detentores dessa capacidade expressiva – esta é, obviamente, fundada nas habilidades musicais do compositor – não estamos na verdade a enganar-nos, pois não acreditamos ser, literalmente, os criadores efectivos da obra em audição. Mas isto não retira a satisfação resultante: o casaco pode ser emprestado, mas é igualmente quentinho.

A última recompensa decorrente da emoção imaginada surge mais claramente quando um ouvinte está disposto a entreter uma hipótese particular acerca do conteúdo emocional daquilo que está a ouvir: que determinada música é um veículo que transmite experiências emocionais de uma pessoa para outra – que a emoção expressa numa determinada peça pertence à biografia do compositor. Assim estamos na verdade a imaginar compartilhar a precisa experiência emocional de outro ser humano (o homem ou a mulher responsável pela música que ouvimos), e isto traz decididamente consigo uma recompensa – a intimidade – que se verifica qualquer que seja o tom positivo ou negativo da emoção manifestada. A sensação de contacto íntimo com a mente e a alma de outro e a sensação de não estarmos manifestamente sozinhos num universo emocional, contrapõe e equilibra os aspectos possivelmente angustiantes de sofrimentos, tristezas ou raivas que se imagine ter. A alienação e separação emocional que frequentemente ocorrem na vida diária é assim milagrosamente varrida através da identificação imaginativa com o compositor, cujos sentimentos foram claramente descobertos para que qualquer pessoa os ouça e espelhe numa Comunhão Emocional.

XI.
Teremos agora salvo os ocupantes da cadeira eléctrica musical? Propus-me descortinar como sentimentos negativos podem, em certas circunstâncias, providenciar satisfação na súmula de um certo número de recompensas mais indirectas decorrentes desses sentimentos e do imaginário de emoções sobre eles erguidas, e que mais do que compensam a desagradabilidade que se possa estar inclinado a atribuir-lhes. A música não constitui um conjunto de amostras estáticas apresentadas num expositor, e acredito podermos agora plenamente justificar porque muitas vezes melomaníacamente se procura a emoção negativa na arte do som, ao invés de uma mera percepção despreocupada, insípida e suficiente.

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