No Words/ No Thoughts: Hexis, Marissa Nadler, The Body, Swans

Hexis – Abalam (2014, Halo Of Flies/ Musicfearsatan)
Embora já uma vez os tenha visto ao vivo – numa tarde em que uma Casa Viva de janelas cerradas transbordava escuridão e strobes – confesso que Abalam é o primeiro trabalho de estúdio que ouço dos Hexis; é também o primeiro disco longa-duração da banda, que até aqui apenas contava com EPs e splits na discografia.
Os dinamarqueses têm a sua raiz na franja mais negra do hardcore, numa sonoridade abrasiva a que são facilmente apontáveis as proximidades com uns Celeste ou com as passagens mais desvairadas dos Rorcal e que, tal como ambos os nomes referidos, tem também o black metal como elemento fulcral da sua genética.
Não é, claro, um disco perfeito. Caso fosse mais longo, o seu assalto constante e impiedoso poderia tornar-se algo monótono ou cansativo. Mas com cerca de 25 minutos de duração, Abalam é um disco que passa a voar pelos ouvidos; embora não sem antes nos encher de pancada para o resto do dia.
Ouvir: Hexis – Tenebris

 

Marissa Nadler – July (2014, Sacred Bones)
A editora Sacred Bones tem-se afirmado como uma das mais interessantes que por aí andam, e se no ano passado me deu a conhecer um dos discos do ano – o Abandon da senhora Pharmakon, claro está – é provável que em 2014 repita a proeza com este July, o mais recente disco de Marissa Nadler. Contudo, se Abandon era um disco de noise negro e asfixiante, o de Marissa Nadler encontra-se num local diametralmente oposto: o de uma folk melancólica, frágil e desamparada.
Com produção do nosso velho conhecido Randall Dunn, as canções de July apoiam-se sobretudo na harmonia fantasmagórica criada pelas várias camadas da voz de Marissa e no dedilhar da sua guitarra (por vezes substituída pelo piano, como no último e belíssimo tema “Nothing in My Heart”), sendo acompanhados por vários instrumentos ao longo do álbum, sempre de uma forma sóbria e pouco intrusiva.
Sugestão de cenário para a audição: dia chuvoso; posição fetal.
Ouvir: Marissa Nadler – Dead City Emily

 


The Body – Christs, Redeemers (2013, Thrill Jockey)
Depois de tanta recauchutagem a várias velocidades dos riffs dos Black Sabbath (nada contra, tudo a favor, mas há vida para além de Iommi), a reinvenção do doom pode muito bem passar por aqui. Os The Body já prometiam grandeza com a estreia All the Waters of the Earth Shall Turn to Blood e a confirmação veio sob a forma de Christs, Redeemers, o segundo disco dos norte-americanos.
Agora sob o selo Thrill Jockey, os The Body continuam a sua senda niilista mas aperfeiçoaram a sua linguagem: mantiveram a infusão de noise e de aterradores samples, mas a sonoridade foi compactada ao ponto de cada nota da guitarra de Chip King e cada pancada da bateria de Lee Bufford funcionarem como uma tenebrosa bigorna em queda livre sobre o crânio de quem as ouve. A voz, essa, continua a ser uma torturada expressão animalesca entre o urro e o uivo; palavras imperceptíveis que Chip vai arrancar a um lugar profundo das suas vísceras para as cuspir para um mundo que, ao que tudo indica, despreza profundamente.
Ouvir: The Body – An Altar or a Grave

 

Swans – To Be Kind (2014, Young God)
Não o ouvi, obviamente, mas a notícia que veio confirmar que os Swans terão um disco novo já em Maio marcou a semana. To Be Kind será o seu nome e terá, tal como o majestoso The Seer, mais de duas horas de duração. Informação mais detalhada aqui na Pitchfork.
Não é demais relembrar que Michael Gira passará pelo Passos Manuel a 4 de Março para a sua estreia a solo no Porto e, muito provavelmente, apresentará em primeira mão algum material de To Be Kind. Ah, os bilhetes estão a voar mas podem ainda ser comprados na Amplistore, Louie Louie, Matéria Prima e Piranha.
Ouvir: Swans – To Be Kind (ao vivo)

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