No Words/ No Thoughts – Jenny Hval, Filho da Mãe

Jenny Hval – Innocence Is Kinky (2013, Rune Grammofon)
Não sei se se tratou de uma sessão de telepatia involuntária com o Michael Gira (quem me dera) ou de pura coincidência, mas escassos dias depois de eu ter descoberto a música de Jenny Hval – por recomendação de um lastfm ou youtube qualquer – foi anunciado que a norueguesa teria a seu cargo as primeiras partes dos concertos da próxima tour dos Swans. Não que Jenny seja uma estreante: Innocence is Kinky é já o segundo disco que edita sob o seu nome civil, a que se juntam outros dois sob o moniker Rockettothesky.
Nos experimentalismos pop de Jenny Hval há uma guitarra, uma bateria e teclados, mas estes instrumentos laboram quase em regime de part-time, uma vez que o fio condutor de Innocence is Kinky é a voz; mais concretamente, os seus altos e baixos, a maneira como Jenny a agarra de maneiras diferentes e a deixa cair ou ascender livremente, como deambula entre o canto e a spoken word ou entre o sussurro e a agressão. As palavras que fluem por esse caminho tortuoso são tão importantes quanto a jornada em si; afinal, Jenny Hval é também escritora, contando com dois romances publicados, e essa inclinação literária tem repercussão óbvia nas suas provocadoras letras.
Dada a recente propensão dos Swans para a inclusão de colaborações externas nos seus álbuns, não me admiraria se o nome de Jenny Hval estivesse na lista de participações do disco que um dia sucederá a To be Kind. Que, por falar nele, já saía cá para fora.
Ouvir: Jenny Hval – Innocence is Kinky

 

Filho da Mãe – Cabeça (2013, Lovers & Lollypops) & Filho da Mãe @ Passos Manuel (1 de Fevereiro de 2014)
Palácio, o disco de estreia de Filho da Mãe, impressionou pela maturidade inesperada que o projecto a solo de Rui Carvalho revelava logo à partida; sem aviso prévio, um guitarrista que conhecíamos de um universo musical oposto enveredava por uma investida solitária à guitarra clássica, criando uma linguagem própria que alia o intrincado fingerpicking nas austeras cordas de nylon ao recurso a uma parafernália de efeitos, loops e samples que preenchem e ampliam o alcance da sua música.
A música de Cabeça navega em águas semelhantes às de Palácio, mas o rumo que segue prima por ser mais firme e coeso. Com a sua expressão consolidada e apuradas as virtudes demonstradas na estreia, Filho da Mãe atingiu ao segundo disco um ponto de difícil superação com que terá de se haver no futuro. Foi essa a sensação com que fiquei ao ouvir o disco, mas a certeza de que nos encontramos perante um artista de primeira água e no topo da forma foi impressa ao testemunhar o concerto de apresentação no Passos Manuel; os temas de Cabeça ganham uma gravidade impressionante ao vivo – a excelente acústica da sala contribuiu para a experiência – e somando-se às incursões a Palácio, com destaque para a jóia da coroa “Helena Aquática”, e à improvisação que finalizou o concerto, foram a banda sonora perfeita para essa noite de sábado.
Ouvir: Filho da Mãe – Caminho de Pregos

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