No Words/ No Thoughts

Lembro-me que até 2004/2005 costumava registar no Excel todos os concertos a que ia. Tinha um campo para o nome da banda, a data, a sala, o preço… Nessa altura passava os 500/600 concertos. Desisti, claro, era um passatempo inútil embora ainda hoje continue a guardar todos os bilhetes religiosamente.

Uns bons anos e mais umas centenas de concertos depois, vivi recentemente dois dos melhores de sempre num fim-de-semana apenas.

Falo dos Swans e dos Neurosis.

Tenho para mim que os “novos” Swans atingem aqui o auge de uma carreira, de um percurso, de uma vida se a de Michael Gira falarmos. O maestro! O maestro completamente eléctrico e completamente possuído por um espírito que dança, que grita, que resmunga… Não senti que tivessem tocado duas horas, nada mesmo. Tocassem umas dez, até de manhã se quisessem, e de lá não teria saído. Mais do que um concerto, uma experiência sonora, física e transcendental.

Já a banda de Scott Kelly, tinha-a visto há dois anos atrás e gostei, gostei muito. No entanto, não foi como desta vez. Confesso que depois de Swans o meu entusiasmo por qualquer concerto ficou reduzido a uma pseudo obrigação de marcar presença. Salvo seja, são os Neurosis! Mas, à medida que o concerto ia decorrendo sentia-me completamente arrasado por aquela força que nenhum de nós nunca a soube colocar em palavras. Sereno, tranquilo e a respirar bem no meio daquele oceano de som.

A música tem esta magia inexplicável, principalmente para todos nós que não passamos um dia sem ouvir um disco. Ao vivo, quando tudo se une a favor, a magnitude do que presenciamos é metafísico.

O volume em ambas as noites estava muito alto, mas de uma forma devastadoramente bonita. Nada acontece por acaso, nada é aleatório. Os soundchecks são dores de cabeça no sentido de procurar o som perfeito, nós próprios na Amplificasom já o vimos acontecer. Tudo é perfeitamente calibrado, planeado para ser harmonioso. No caso dos Swans, um amigo chamou-me a atenção para uma guitarra que esteve todo o tempo parada. Repararam? Também ela fazia parte do concerto a emanar reverbs cá para fora.

Vi ambos os concertos sentado. É certo que cada concerto é um caso específico, mas com o aproximar dos 30 e com uma quantidade absurda de riffs nos ombros, a minha tendência é cada vez mais ser selectivo com o que vou e como vou ver. Dispensei o headbanging e apreciei cada momento de forma diferente.

Incutiram-nos esta ideia que se encontra o sossego em ambientes tranquilos e silenciosos. Errado. Junto estes ao dos Godspeed e falamos de três concertos viscerais que são muito mais, que representam muito mais. Nada, mesmo nada, nos pode preparar e no fim da noite são estas as experiências que nos enriquecem, que nos fazem crescer.

Cada vez mais se usam adjectivos de forma gratuita. Não contem comigo, mas aqui sublinho e insisto: únicos! E daqui a muitos anos, quando os netos me vierem mostrar o noise da altura, terei uma conversa com eles sobre o que foi ver Godspeed You! Black Emperor, Swans e Neurosis em 2012.

Comentários

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  1. T. Ramiro

    Compreendo o que dizes. Senti o mesmo quando me estreei perante ambas as bandas no ano que passou. Desta vez perdi duas das minhas bandas favoritas no mesmo fim-de-semana. Tentei nem pensar nisso, mas isso é outro assunto!
    Concordo tanto com o teu último parágrafo, já senti isso, por exemplo, a ver uns Sunn, para dar outro exemplo extremo. Saio sempre destas experiências com uma paz de espírito brutais e de concretização. Marcam mesmo.
    É também à medida que acumulas riffs nos ombros que passas a usar os adjectivos cada vez menos de forma gratuita. :)