O Alimão

Quinta-Feira, cá estou eu para mais um texto. Para esta semana tinha pensado em falar sobre pessoas que vou conhecendo em viagens pelo mundo fora, que muitas vezes acabo por me recordar melhor do que os sítios. Pensei no Africano que foi ao meu lado no autocarro Lisboa-Bruxelas quando eu tinha 16 anos e me tentava convencer a abrir uma loja de telecomunicações em Portugal, no Norte-Americano que conheci num hostel, homossexual e que dizia ter vivido numa comunidade no Alentejo, encantado pelo que eu lhe falava de literatura, o Polaco que conheci há umas semanas no regresso de Oslo, entre tantos outros.
No entanto, dados os últimos acontecimentos, vou falar apenas de um, o Marcus ou Alemão, dito Alimão. Nos anos do meu pai fui almoçar a uma praia no litoral, e ao fim de um bocado, por causa de uma mala em cima de uma mesa, pedimos se um casal podia mexer ligeiramente a mala para alargar a vista sobre o mar. Eles acederam, e por algo que discutíamos ou pelo livro que a minha mãe tinha na mão, o Alimão entrou a matar. Perguntava se sabíamos qual o melhor livro de Jorge de Sena, tudo num Português muito correcto. A conversa desenvolveu-se em torno do seu amor pelos livros e por Portugal, com conhecimentos bastante profundos e curiosos, pois muitos dos nomes que conhecia eram ‘fora-de-moda’, mas igualmente válidos. Ao fim de um longo bocado, o Marcus, com cerca de 40 anos, decidiu ir buscar a viola e partilhar alguns conhecimentos sobre a música popular Portuguesa, mais profundo do que aqueles que nós temos, e decidiu tocar-nos umas músicas, em jeito de homenagem pela atenção dispensada. Entretanto, um casal tinha-se sentado na mesa ao lado, e ele pediu-lhes permissão, a que lhe acederam.

Marcus atira-se a uma música do Zeca Afonso, e recolhidos os aplausos, o casal explica que não só conhecia pessoalmente o Zeca Afonso, como era o homem, que se revelara o artista José Santa-Bárbara, o autor de nove das capas dos discos de Zeca Afonso.
O Marcus levantou-se prontamente e foi dar uma volta e olhar o mar de frente, até que regressou com lágrimas nos olhos por causa da felicidade de estar ali a conhecer novas ligações de um meio que ele conhece através da história e que procura saber mais através de conversas com quem vai conhecendo, com um instinto curioso insaciável e muitas perguntas.

Para além de um conhecimento profundo do cancioneiro popular, o Marcus Alimão, tinha também um grande interesse pela política e pela ordem do país, o que na presença dos meus pais e de um artista como José Santa-Bárbara (de longa obra e muito simpático mesmo), se manifestava por intermináveis sucessões de perguntas. Para mim, quase como espectador disto, era tudo muito interessante.

Entretanto, como isto se desenrolou ao longo de uma tarde inteira, tinha começado a escrevinhar umas coisas na brincadeira, que o Marcus depois me perguntou se podia comprar. Claro que eu lho ofereci (e ele retribuiu-me com uma garrafa de água, para dar algo físico em troca), juntamente com o meu livro, tal como o dei também a Santa-Bárbara. Despachadas as dedicatórias nos livros, o Marcus disse-me que o desenho ia para a Alemanha, onde ele é professor, para ser pendurado ao lado de uma artista Portuguesa que ele não revelou. Claro que o desenho é apenas um rascunho, ainda por cima de uma pessoa que não tem jeito para o traço, mas espero que pelo menos o faça lembrar-se desta tarde em Portugal.
Ou seja, muito satisfatório, e que me deixa na posição bastante humilde e privilegiada de passar assim uma tarde em tão boa companhia.

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