O Anjo do Desespero

“Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.”
Ich bin der Engel der Verzweiflung, Heiner Müller, 1979. Trad. portuguesa de João Barrento, Relógio d’Água, 1997, ed bilingue.
Deparar-me com este poema, ao folhear um livro, foi quanto bastou para me decidir a comprá-lo.
Não estava a folhear o livro em questão (“O Anjo do Desespero” do Heiner Müller) propriamente “às escuras”, tinha já tido o meu primeiro contacto com a obra do autor no ano anterior a este episódio. Corria o ano de 1996 e uma peça de teatro em cena na Casa das Artes no Porto tinha-me despertado a atenção pelo tema e pelo facto de o encenador ser um conhecido meu.
A peça em questão chamava-se “Mauser” e foi uma de entre várias que por essa altura foram levadas a cena após o falecimento do Heiner Müller em finais de ’95. O argumento da peça colocava de um lado o Coro, que representava o comité de uma revolução e, do outro lado, A, um antigo carrasco ao serviço da revolução, agora vítima por ter vacilado ao seguir as ordens do Coro.
Pelo meio “colaram” um outro texto do autor (“Anúncio de Morte”) que é, basicamente, um relato do suicídio da esposa do Heiner Müller. Durante esse interregno uma mulher ensanguentada surgia de dentro de uma banheira no meio do palco e começava-se a ouvir música de Einstürzende Neubaten, o que mais tarde valeu um reparo de minha parte ao encenador do género “mas porque raio é que escolheste Neubauten, aquele momento pedia era Diamanda Galas?!” (que “lata” do caraças, a minha).
Nos tempos que se seguiram tratei de andar “à caça” do Heiner Müller. Primeiro foi “O Anjo do Desespero” que é uma colectânea de poemas dele, sendo que vários desses poemas surgem também em peças, depois o “Germânia 3”, o seu último texto para teatro e, por fim, ainda consegui deitar a mão a uma edição de 1982 que reunia “A Missão” e outras peças.
Quando, ainda no ano de 1997, os Mão Morta fizeram o “Müller no Hotel Hessischer Hof” fiquei curioso com o tratamento que dariam ao “O Anjo do Desespero” mas, quando finalmente vi o trabalho, mais tarde na televisão, fiquei desiludido. Por vezes imaginamos certas coisas de determinada maneira e achamos que todos também o sentem assim…
Nota: as diferenças no texto devem-se ao facto do  Adolfo Luxúria Canibal ter usado a sua própria tradução.

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