O que é um "Filme de Domingo à Tarde"?

Muito se fala de um filme ser do estilo “Domingo à Tarde” ou de ter grande potencial de “Filme de Domingo à Tarde”. Mas afinal o que é um filme de domingo à tarde? O que faz esta específica janela temporal ter características tão bem definidas que até os seus parâmetros de entretenimento são standartizados? Porque é que um filme passa a ser infernalmente hediondo depois de ter sido arrastado pelas lamaçais da infâmia por uma estação de televisão a um domingo à tarde? E mais importante ainda: porque é que nunca nos lembramos de nenhum filme que passa a um domingo à tarde, mas apenas de um aglomerado de imagens que piscam incessantemente na zona mais negra das nossas memórias, como um sentimento parasita ou uma emoção cancerígena?

Ao domingo à tarde as estações de televisão passam filmes que começam cerca das duas das tarde e arrastam-se até à noite. Se é ou não o mesmo filme neste intervalo de tempo, ninguém sabe. A quantidade de intervalos e a sua demente duração faz com que qualquer surfista de sofá se esqueça completamente do que está a ver. A vantagem destes filmes é que mesmo perdendo 83% do total, a história percebe-se sempre. Provavelmente porque é sempre o mesmo filme… Além disso existe uma aura estranha de unanimidade nestes filmes que permite que mesmo que se faça zaping para outro canal a história continua noutro filme, mesmo com outros cenários e actores, o objectivo é sempre o mesmo.

Não é bem cinema ou televisão. É uma massa viva e consciente, lenta e preguiçosa, que se arrasta tarde fora com cães a falar e andar de trenó, crianças super-heróis, união familiar incondicional em technicolor, aspect ratios deformados para além do aceitável fazendo Jackie Chan parecer 10 quilos mais gordo ou pais natais que desistem da profissão e tentam suprimir impulsos pedófilos.

O pior de tudo são as traduções. As legendas para um filme de domingo à tarde são sempre aligeiradas para não ferir susceptibilidades, mesmo quando isso implique substituir um “Foda-se, caralhos me fodam, com mil piças!” por um politicamente polido “Raios” quando uma velhinha cega com Alzheimer é violada analmente por um bando de motoqueiros com SIDA e o seu cão (falante).

Mas nem tudo isto é mau. O efeito positivo deste tipo de multimédia numa pessoa mentalmente equilibrada é criar uma vontade enorme de sair, apanhar ar, passear com a família. Nem que isto implique que se enfiem num centro comercial onde vão comprar por 4.99€ o mesmo filme de que fugiram num impulso consumista de que nenhum de nós se orgulha.

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