O Lado Negro do Ritmo

Em relação aos vários discos que tenho ouvido nas últimas semanas, fui reparando em algumas edições de qualidade que têm em comum o risco de querer descobrir novos territórios dentro do largo espectro da música electrónica  (isto sem contar com o excelente trabalho dos Boards of Canada que optei por não escrever sobre ele).

 

El Mahdy Jr. – The Spirit of Fucked Up Places ( 2013, Boomarm Nation)
El Mahdy Jr. gravou um dos melhores discos de Beats (ou Dubstep com toques étnicos) do ano e não o fez de ânimo leve – em cada ritmo ecoam as memórias do seu país natal Argélia, ecoa também a música árabe (muitas vezes encarada como música do demónio), rebatem ritmos de África, soltam-se ambientes e batidas que confirmam a mestria de El Mahdy Jr. na arte de produzir temas cheios de groove e intensidade. The Spirit Of Fucked-Up Places é um disco que se cruza com o cosmopolitismo de cidades como Istambul, onde vive agora este músico, que mistura os ritmos subterrâneos do Dubstep e tudo é mesclado com influências da música RAI (música Folk tradicional da Argélia), resultando num todo bem coeso. Para além de se tratar de um trabalho brilhante, é também uma viagem às nossas memórias, interpretações, descobertas, como se este fosse um taxi onde a rádio insiste em nos desorientar perante a janela da realidade.

 

These Hidden Hands – These Hidden Hands (2013, Hidden Hundred)
Tommy Four Seven e Alain apresentam aqui a sua electrónica pintada de tons negros e batidas industriais. Ritmos duros que se movem de forma pausada mas em direcção à música Techno. Quando ouvimos a repetição das palavras “When Told” na música com o mesmo título, entramos numa espécie de mantra sonora onde se podem estabelecer comparações com nomes como Demdike Stare, Gas ou Pan Sonic. Alguns ambientes remetem-nos para o Rock Gótico do final dos anos 70 e início dos anos 80, onde o ritmo e o dramatismo de uns Bauhaus ou Cocteau Twins pintavam de negro toda uma geração.

 

Rainforest Spiritual Enslavement – Folklore (2013, Hospital Productions)
Dominick Fernow, músico responsável pelo projecto noise Prurient e também pela editora Hospital Productions, encontrou em Rainforest Spiritual Enslavement mais uma máscara para a sua proficiente produtividade. Neste EP limitado a 500 cópias, é explorado o drone e a música ambiental numa perspectiva mais contemplativa do que o ruído abrasivo de Prurient. Os sons ganham espaço e tornam-se inquietantes. A propulsão electrónica vai-se revelando lentamente, embrenhando-se em paisagens que poderiam fazer parte de alguns discos de Black Metal atmosférico vindos directamente da escola Burzum. Ao longo do EP a tonalidade vai-se mantendo densa mas ao mesmo tempo parece articulada com o espaço, como se tratasse de uma narrativa de Field Recordings. Esperemos por mais.

 

Huerco S. – Colonial Patterns (2013, Software Records)
Huerco S. (Brian Leeds) apresenta aqui o seu Dub-techno que se agita em ambientes só possíveis de dançar no nosso subconsciente. Mostra também uma mestria em talhar os sons de forma a que estes tomem de assalto o nosso espaço sonoro – não fosse a utilização do echo uma forma de “preencher” também o espaço físico. A forma como o sintetizador é arrastado ao lado dos sons mais graves faz com que as músicas de Huerco S. se aproximem do Drone. A música Techno aqui pode ser interpretada como uma variação, em que o estilo é trabalhado/misturado de modo a parecer que se está constantemente a desvanecer e torna-se por isso difícil de catalogar como dançável. Colonial Patterns é um disco hipnótico e faz todo o sentido ter sido editado pela editora de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never).

 

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