Os Heróis e o Método: do Dubstep a Salvador Dali

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Scuba é Paul Rose e a sua música é um processador que tanto calcula ritmos do Dubstep, como acelera em modo Garage ou até insiste na repetição do Techno minimal. Música para dançar? Quem sabe… A questão resolve-se também se a direcionarmos para o conhecido IDM, som que foi codificado por nomes como Autechre, Aphex Twin, The Orb etc. Isto é dançável? Agarrando nas poucas questões que me foi possível fazer a Scuba, começo por querer saber qual tem sido o percurso que de certa forma o levou a querer fazer este tipo de som. Para Paul, o que o levou àquilo que é hoje, foi estar próximo do Dubstep desde o início do movimento e poder juntar a essa descoberta aquilo que o levou até à eletrónica em primeiro lugar – o House, o Techno e o próprio Electro. Partilho com ele a alusão ao ambiente vivido nos anos setenta e inicio dos oitentas, onde bandas como os Joy Division incorporavam na sua música o ambiente negro e opressivo de Manchester, mas também um certo alheamento próximo do que caraterizou parte dos processos laborais nas grandes fábricas, que levavam as pessoas a alhearem-se do trabalho rotineiro que descaracterizava as suas personalidades. É este tipo de Dubstep/Techno uma resposta às sensações urbanas? É o Techno minimal um elixir para o subconsciente? Para Paul as possíveis interpretações que possam surgir só as faz quando as músicas estão terminadas, quando tenta perceber de onde estas vieram, no entanto o processo de composição é bastante espontâneo. Será que podemos falar de Future Garage/Dubstep como um movimento enraizado em Inglaterra, como foi noutros tempos o Punk? O facto de existirem clubes que abrem as portas a estes Djs/Músicos, será uma das vias para haver a mobilização notada em torno do Dubstep? Paul concorda que a cena dos clubes é muito melhor agora do que era nos anos 90. Refere ainda o facto de que até salas maiores, acolhem estas sonoridades e isso é algo que não se via tanto. Desabafa ainda que não lhe agrada ver tanta gente a “arruma-lo” no estilo Dubstep, quando para ele o rótulo mais justo para o que faz agora é o House (para mim não me ajuda nada, já que sou um analfabeto no que diz respeito a este estilo de música). Tentando enquadrar opiniões e influências pedi que me enumerasse 10 discos que o tivessem influenciado, mais uma vez o tiro saiu ao lado, já que decidiu apenas enviar-me cinco: Orbital – Orbital II; Pet Shop Boys – Actually; Carl Cox – FACT; Autechr – Amber; The Smiths – The Queen Is Dead. Para as despedidas fica a referência de que haverá alguma movimentação ao vivo, irão ser lançados alguns singles e outras surpresas já que Scuba está em estúdio a magicar sons diferentes de tudo o que fez no passado.

Black Lips: via indierockreviews.com
Quanto a outros sons…

Esta semana foi frutuosa em sons para vencer o frio. Comecei com “Dressed Up for the Letdown” do Richard Swift, a prova da qualidade deste compositor, com músicas simples e ao mesmo tempo inteligentes pelos arranjos encontrados. Ouvi o EP homónimo de 1981 das ESG, um trabalho que contribuiu para a germinação de bandas como os LCD Soundsystem e que consolida a aproximação da música de dança com as batidas Funk tocadas com instrumentos e atitude própria do Rock mais simples/cru. Da Souljazz voltei a escolher nova compilação, desta vez a “Studio One Rockers“, uma das melhores colheitas de Reggae. Há aqui uma variedade de leituras e expressões melódicas que abarcam tanto o lado mais tradicional de Horace Andy, como a trupe dos Skatalites. Quanto à minha prescrição médica de dose Rock n’ Roll, esta deixei entregue aos últimos discos dos Black Lips e dos Black Keys, respetivamente “Arabia Mountain” (2011) e “El Camino” (2011). Os primeiros ergueram peito com as t-shirts dos Ramones, os segundos foram um pouco mais excêntricos e arriscaram umas lantejoulas à T. Rex. Em ambos os casos são dois discos excelentes e ótimos para o que tempo que passamos a conduzir ou a caminhar. Quanto aos clássicos, limpei o pó ao “Lust for Life” do Iggy Pop e ao “Marquee Moon” dos Television, discos que se vão tornando bons parceiros para a vida.

Gonjasufi
No que diz respeito a outras latitudes e coordenadas musicais, relembrei o Gonjasufi, através da música Kowboys & Indians. Quanto à Amplificasom, fiquei contente por se ter consolidado o regresso do Glenn Jones (ao qual tive o prazer de dedicar algumas linhas). Deixei-me surpreender visualmente e musicalmente pela curta de animação datada de 1943 e que uniu dois nomes fomentadores da nossa imaginação (em diferentes fases da vida) – Salvador Dali e a Walt Disney, o vídeo chama-se “Destino“. Houve ainda tempo para descobrir outro “tesouro”, com a aparição do Tom Waits em 1977 no programa cómico Fernwood Tonight.

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No campo exclusivamente visual e sensorial, destaque para o documentário “I Believe I Can Fly (flight of the frenchies)“, jovens que decidem desafiar limites e que ao vermos as suas acrobacias é impossível não sentir uma alteração na respiração. Por fim as esculturas duras e férreas, à base de correntes, de Seo Young Deok.

Boa semana.

 

 

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