Os Heróis e o Método: Dreamcolour – Ou como os óculos 3D caíram na sopa de cogumelos

Foi através da cassete Inner Worship C60 (Stunned Records) que me senti atraído pelos rituais experimentais presentes na música dos Dreamcolour. Aqui formula-se o indefinido que é muitas vezes o caminho seguido pela música experimental. Através de vários efeitos (maquinaria de diferentes proveniências) vão-se esticando e repetindo todo o tipo de sons, ao mesmo tempo que se abre espaço ao saxofone que na sua irreverência livre faz irisar batidas inconstantes. Poderia entrar aqui o espírito disforme de Albert Ayler ou de Sonny Sharrock, da mesma forma que se tentam criar longos temas psicadélicos de grupos como os Acid Mothers Temple ou Can – tudo numa versão noise.

A primeira questão que foi possível fazer aos membros deste grupo, surge após ter visto uma foto deles no myspace onde aparecem a tocar dentro de uma loja de discos e num espaço extremamente pequeno (ver acima). Concertos informais que muitas vezes estão relacionados com uma atitude do-it-yourself,  para que se criem momentos únicos em espaços que muitas vezes nem oferecem grandes condições sonoras, mas é aqui que as bandas têm oportunidade de experimentar. Havendo esses espaços e essa cultura, automaticamente surgem mais bandas (mesmo que algumas delas não sejam tão boas quanto isso). O que conta é o espírito da coisa.

Voltando aos Dreamcolour, mais precisamente às palavras de Alex (bateria, guitarra, eletrónica, voz e tudo o resto que possa fazer barulho saudável) e Rob  (saxofone alto, voz e outras “libertinagens jazzísticas”) apontam que tudo determina a sua música, o espaço, o estado de espírito e as várias coisas que possam estar a ocorrer naquele momento específico.

Mantendo um certo enquadramento da forma como tenho feito nos textos anteriores – pedi a cada um dos músicos que listassem 10 discos que os tenham moldado naquilo que são hoje as suas motivações artísticas:

Alex:

1. Terry Riley – Rainbow in Curved Air

2. Peter Brotzmann – Machine Gun

3. Nuggets Comps

4. Pharoah Sanders – Izipho Zam

5. Screamin’ Jay Hawkins – At Home With…

6. Mothers of Invention – Freak Out!

7. Sunburned Hand Of The Man – No Magic Man

8. John Coltrane – Ascension

9. Albert Ayler – Spiritual Unity

10. Brother Lynch Hung – Season Of Da Sickness

 

Rob:

1. The Mothers of Invention- Burnt Weenie Sandwich

2. Peter Brotzmann Octet- Machine Gun

3. Captain Beefheart and His Magic Band- Trout Mask Replica

4. Igor Stravinsky- 80th Birthday Series, The Firebird Suite

5. Pharoah Sanders- Elevation

6. John Zorn- Cartoon S&M

7. Wild Man Fischer- An Evening With

8. John Coltrane- Live In Japan

9. Frank Zappa- London Symphony Orchestra Vol. I, II

10. Eden Ahbez- Eden’s Island

Voltando à K7 dos Dreamcolour e ao psicadelismo que há nela, haverá também aqui a presença ou busca de outros elementos motivadores (libertadores) como a religião, as ragas ou outras manifestações transcendentais do mundo? Para eles o sentido nem sempre é uniforme, até porque muitos desses chamados rituais não são mais que expressões e celebrações da vida e da criatividade. De certa forma o mesmo que este grupo está a fazer sem no entanto ter que haver uma assunção religiosa. Alex não sente qualquer conexão com as várias religiões estabelecidas, aponta porém o facto de que a criatividade é um fenómeno que alguns tentam explicar como advindo da espiritualidade. A sua música é apenas a expressão das suas lutas/triunfos da vida. Rob complementa e diz sentir que tudo para ele é religioso, rejeitando as religiões convencionais organizadas. Mostra alguma abertura de espírito quando diz que se eu não acredito em “DEUS” há então aqui uma crença, a da refutação, e portanto cada um que acredite no que quiser. Para ele tudo é deus e toca música para tudo e todos, para ele esse é o dever. Pelo amor, pelo ódio e tudo o que esteja no meio.

“Descendo à terra” e até porque esta já nos dá muito que comer, concentro-me naquilo que pode ser o processo de criação destes temas, convencido de que seria difícil ter algum plano pré-estabelecido senão várias horas de confronto artístico e expressivo de cada um deste músicos. Não errei quando me dizem que a base é todo o tipo de experimentação, jam-sessions que atingem o ponto certo quando percebem que há no “caos” algum sentido. Explicam que se trata da verbalização das ideias de cada um, sem no entanto procurarem qualquer tipo de explicação.

Alimentando este tipo de grupos ativos no underground e estando em permanente contacto com outras pessoas dos mesmos meios artísticos, será que está aqui a receita importante para haver mais colaborações entre os vários músicos? Alex concorda mas reforça que não estão apenas recetivos a músicos, como isso já fosse condicionante apenas àqueles com conhecimento teórico e prático sobre determinado instrumento. Refere que qualquer pessoa que tenha algo a exprimir sobre a dimensão sonora é bem-vindo.

Tentei ainda confirmar se o facto de optarem na maior parte das edições pelo formato da cassete está relacionado com a própria estética do-it-yourself ou se também é influenciado pelo facto de a cultura hoje ser consumida de uma forma rápida pelo formato digital e a cassete de certa forma manter o simbolismo da era da imediata transmissão/reprodução/gravação caseira de música. Rob confessa que se deve também ao facto de o dinheiro não ser assim tanto e portanto preferem gravar e fazê-lo desta forma do que não o fazer. Confirma que acaba por ser igualmente motivado pelo consumo rápido que existe nos nossos dias. Veja-se por exemplo uma das bandas mais importantes da música noise dos últimos anos, os Yellow Swans que antes de terminarem contavam com mais de 50 edições, sendo que a maior parte delas surgiram em formato CD-R – no meio de tanta proliferação criativa ficamos com discos geniais e outros um pouco longe disso.

Os Dreamcolour acabam por tocar várias vezes em espaços “rudes”, pequenos e sem grandes condições, mas que acabam por oferecer uma proximidade e intensidade diferente para quem os está a ver. Será que estes espaços são determinantes para o tipo de música livre que fazem? Confirmam que a escolha por alguns destes espaços acontece porque os próprios donos são pessoas que mantêm a abertura de espírito necessária para acolher o que por vezes ainda não se definiu ou sustentou ao nível do processo criativo. É também importante tocar nestes espaços porque os músicos acabam por ser inspirados por elementos que não teriam noutro lado qualquer. A disposição deste tipos é mesmo esta: “tocamos em qualquer lado onde hajam pessoas que nos queiram ouvir.”.

Em relação ao futuro haverá uma nova cassete em fevereiro através da DEEPTAPES, chamada “The History of Dreaming in Colour”, sendo esta uma retrospetiva das gravações que fizeram de 2008 a 2011. Fica ainda a vontade de editar um LP assim como cozinhar a sopa psicadélica nos vários concertos que querem fazer em 2012.

Uma vez que se trata de um objeto que provavelmente não será fácil de comprar/encontrar, podem sacar o mesmo no site da DEEPTAPES.

 

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