Os Heróis e os Métodos: …da territorialidade da nossa mente

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Headress – Lunes (2009, No Quarter)
Se uníssemos a fase drone e distorcida dos Earth, com o seu desfile negro de folk rock, provavelmente teríamos algo parecido com a música destes Headress. Aos movimentos que cavam no drone com guitarras, juntam-se alguns efeitos (fuzz, delay, etc.) que tornam estas músicas mais densas e psicadélicas. Há uma aproximação à estrutura rock, não caindo por isso na tentação de deixar os sons perderem-se num incessante experimentalismo. Um disco forte que sabe bem ouvir por acoplar em si vários elementos do pós-rock dos últimos tempos.

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Sunn 0))) – Monoliths & Dimensions (2009, Southern Lord)
Em 2008 quando vi este grupo ao vivo escrevi o seguinte na revista Underworld: “Para Maslow, o medo é o pico de uma experiência vivida – manchando a linha entre a realidade e o próprio subconsciente. O exemplo pode ser desajustado mas no concerto de Sunn 0))) sentiram-se experiências de limite e o corpo foi obrigado a reagir fazendo daquele momento algo único e marcante.” Apesar de em disco não ser possível sentir estas sensações de forma tão intensa, não deixa de ser magnífico o facto de estes músicos terem descoberto uma linguagem própria que replicam a cada trabalho, sabendo porém introduzir elementos novos e estimulantes. O drone cavernoso, esticado num som grave e distorcido, é aqui elevado a uma elegia que tem como função incitar rituais musicais. Ouvir um disco de Sunn 0))) pode ser o mesmo que dividir os pés entre a tentação de nos perdermos num abismo e a repulsa de cair no mesmo. Este trabalho tem alguma surpresas, como a participação de Dylan Carlson, Oren Ambarchi, o mestre em cuidar de bonsais sonoros Eyvind Kang ou Jessika Kenney que podemos ouvir nos Wolves in The Throne Room. Épico é a palavra certa, sobretudo quando coros “angélicos”, declamações ou instrumentos de sopro batem nas inquietáveis labaredas que saem dos amplificadores dos Sunn 0))).

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King Jammy – Jammys From the Roots 1977-1985 (2010, Greensleeves)
King Jammy (ou em jeito de polémica monárquica, Prince Jammy) operou como homem de estúdio, aprendendo com mestres como o King Tubby. A sua escalada até chegar a produtor fez com que através do seu trabalho se consolidassem discos de refinada qualidade sobretudo de Roots Reggae. Esta coletânea reúne nomes incontornáveis do estilo (em alguns casos também associados ao Dub ou Dancehall), como por exemplo Johnny Osbourne, Sugar Minott, Augustus Pablo, Junior Delgado entre outros. Vibrações que podem servir de primeiros socorros num dia de calor.

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Cassiano – Apresentamos Nosso Cassiano (1973, Odeon)
Na linha de cantores rock brasileiros, um dos nomes a merecer destaque (não desisto da minha senda de descobrir ao máximo a música deste país), é o de Cassiano, uma espécie de voz soul à Stevie Wonder, música leve com excelentes refrões, arranjos com algum funk (incluindo orquestrações requintadas) e uma base em registo acústico. Um nome a merecer destaque e a juntar a outros como Jards Macalé, o grande (literalmente também) Tim Maia ou até a Seu Jorge.
Boa semana…

Comentários

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  1. André

    Excelente a recuperação ao Monoliths! Agrada-me que nestes tempos de consumo tão rápido revisites discos antigos, embora confesse que me assustei quando me lembraste que foi editado em 2009.

    Alice <3

  2. Pedro Nunes

    Sinceramente penso que estamos numa das melhores eras para quem gosta de música e deseja aceder a toda uma variedade de sons.

    No entanto a busca já não implica enviar cenas por correio, nem pesquisas demasiado elaboradas, por isso é fácil cair na tentação de acumular tanta música ao ponto de nos mexer com o sistema nervoso, mais do que nos fazer parar o tempo em deleite.

    Acompanho diversas publicações e sobretudo blogs de malta dedicada, gosto de ver e espreitar uma outra coisa nova que sai, mas as minhas preocupações no presente são: ouvir coisas novas, e aqui novo entenda-se com algo anteriormente desconhecido (seja um disco de 1960, field recordings de qualquer lugar distante ou um disco que saiu há 24 horas no soundcloud).

    Faço por limitar os discos que ouço, sabendo porém que é impossível não ter um critério que me obrigue a impor um certo filtro de dar uma ou duas rodadas em todos os discos e depois disso eventualmente ficarão alguns a rodar mais tempo.

    Por isso, esta coluna enquanto por aqui estiver e continuando no mesmo formato, será para desenterrar sons “novos” e bons.

    Obrigado caríssimo,
    Pedro Nunes

  3. Pedro Nunes

    Ah e o Monoliths é brilhante, mesmo agora que o entusiasmo em relação ao mesmo já teve tempo de acalmar… ;)