Os óculos que mostram outra realidade

Para usufruir do 3D nos cinemas é preciso pagar mais 1,5€ pelos óculos especiais. Uns óculos de massa pretos e com lentes ligeiramente escurecidas. Estes óculos especiais fazem-me lembrar um filme de culto muito interessante de John Carpenter “They Live” (“Eles Vivem”, 1988). O filme de John Carpenter conta a história de um pacato cidadão desempregado que anda à procura de emprego. Um dia, encontra uns óculos escuros que o fazem ver o mundo como ele realmente é e não como as aparências mostram. Um mundo subjugado por uma raça alienígena, que está entre nós, disfarçada de humanos normais.
Um mundo que lembra a “Alegoria da Caverna” de Platão. Um mundo povoado por sombras projectadas pela realidade escondida. Um mundo adormecido e submisso por poderes superiores e bem escondidos – é clara a crítica política e social de Carpenter – que impede que se coloquem em causa os problemas da sociedade e as políticas governativas. Com os óculos especiais, muito parecidos com esses do 3D do cinema, o personagem via um mundo de alienígenas de aspecto cavernoso e ameaçador, assim como mensagens subliminares transmitidas pelos diversos media:
Obedeçam!
Comprem!
Vejam TV!
Submetam-se!
Mantenham-se calmos!
John Carpenter, com a metáfora filosófica de “They Live”, mostrou como os poderes instituídos (no filme os aliens funcionam como meras parábolas) podem engendrar sistemas de controlo do indivíduo, numa extensão da visão da manipulação social pensada por George Orwell em “1984”. Às vezes penso que a ficção se adianta à realidade. Vivemos numa sociedade hiper-consumista como o filósofo Gilles Lipovetsky não se tem fartado de criticar. Esta sociedade na qual julgamos obter a felicidade através de bens de consumo material, através da obediência cega às autoridades que supostamente “sabem” mais do que o comum dos mortais anónimos.
Uma sociedade que precisava de uns óculos especiais para descobrir o verdadeiro mundo oculto, podre e corrupto, que se esconde por detrás de grandes nomes, grandes instituições, grandes políticos e grandes empresas supostamente impolutas. Se pudéssemos usufruir desses decisivos óculos especiais para descortinar a verdadeira realidade que se encobre por detrás das campanhas de solidariedade beneméritas, dos interesses financeiros à escala global, dos jogos políticos de bastidores, das manipulações informativas perpretadas pela comunicação social, das manobras de propaganda económica e política, conseguiríamos ver, não sem perplexidade envergonhada, a perversidade, a vileza, a infâmia, a sordidez, a ganância, a ânsia de poder, e a escória que brota dos seres humanos que se julgam acima de outros seres humanos, limitando o exercício de liberdade individual.
Mas ainda que não tenhamos os óculos especiais para conhecer a verdadeira realidade, teremos sempre uma ferramenta para combater o conformismo e a submissão: espírito crítico.

Comentários

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  1. Rodolfo

    Correndo o risco de realçar o evidente para ti, recomendo o René Guénon e o seu opus O Reino da Quantidade e Os Sinais dos Tempos.

    Ainda que parta de uma análise mais mística e afins, não deixa de ser uma leitura bastante interessante sobre os tempos e as pessoas do agora.

  2. Scapegoatt

    Penso que o primeiro grande fenómeno com óculos 3D aqui em Portugal foi na década de 80 (não sei especificar o ano) quando a RTP anunciou que ia transmitir um filme chamado "O Monstro do Lago Ness", em que os óculos iriam dar mais emoção a coisa. Lembro-me da euforia que houve na altura. Para mim foi um fiasco. Agora se tivesse os oculos do filme do “Carpenter”, dava-lhes bom uso. Oh como eu dava….

  3. Rodolfo

    scapegoat: o filme era o "Monstro da Lagoa Negra" ;)

    sim, fiasco mesmo; só o ocasional peixinho a nadar em direcção ao ecran causava algum efeito…

  4. Zatoichi

    Um dos filmes mais subversivos e inteligentes de sempre! John Carpenter IS GOD!

  5. Ocelot

    Já não vejo esse filme há uns 5 ou 6 anos e confesso que na altura não fiz essa analogia, talvez pela tenra idade que tinha na altura (tenho 23 agora), mas a maneira que acordei para a vida foi através do meu jogo favorito Metal Gear Solid que retrata muito desses "fenómenos políticos". Agora fiquei com curiosidade de voltar a ver esse filme, e é o que vou fazer. Excelentre analogia André. Em LOST também podemos observar várias referências sobre o que se passa no mundo real e no Zeitgeist (ainda não vi o 2) que foi o documentário que até agora me chocou mais.