Os Heróis e os Métodos #001

Decidi desenterrar os “Heróis e os Métodos” e dar-lhe um formato que me permita postar com mais frequência, algo que nem sempre é possível quando estou limitado à crítica de discos. Há rodelas de música que me ficam com meses de audições, outras até me pedem para não falar delas, para sentir apenas em segredo… Com isto tudo o tempo passa, e sem deadlines do jornalismo musical, acaba-se muitas vezes pela escuta solitária.
Antes de deixar a primeira lista de escolhidos para esta semana, quero fazer duas breves menções: primeiro o Amplifest’13 que já começa a tomar forma e com ele a certeza de que haverão concertos surpreendentes; depois o regresso do Tom Zé a Portugal para promover a revisitação do movimento Tropicalista com o disco Tropicália lixo lógico“. Vi-o em Viseu esta semana e foi muito bom ter um dos meus heróis musicais ali tão perto, ouvi-lo contar histórias, a dar cor a fraseados loucos, mostrando-se inventivo como sempre. Um concerto que ficará na minha memória durante muito tempo.

A Lista dos Heróis escolhidos esta semana:
01 – Andy Stott – Cracked
02 – Deadbeat – Lazy Jane (Steppers Dub)
03 – J Dilla – Waves
04 – Faust – The Lurcher (BBC sessions)
05 – Demdike Stare – Bardo Thodol
06 – Six Organs of Admittance – S/Word and Leviathan
07 – Neil Young – Rumblin’
08 – Jacaszek – What Wind-Walks Up Above!
09 – Mulatu Astatke – Radcliffe

Começamos com o Andy Stott, do qual se recomendam os EP’s “Passed Me By” e “We Stay Together” (2011). A sua sonoridade é música de dança, focando-se nos efeitos da urbanidade, nos sons maquinais, no dubstep, na música minimal e no ruído industrial, num festim de dança, onde os corpos mexem-se como se fossem robots numa derradeira luta para vencerem a sua própria despersonalização. A música de Deadbeat (Scott Monteith) segue uma linha mais orientada para o Techno, onde o ritmo e o groove procuram as vibrações do Dub. Uma sonoridade que vive muito da componente física dos seus ritmos/tons mais graves. De seguida escolhi o Dilla, pela vivacidade do disco Donuts (2006), pequenos fragmentos Hip Hop que se tornaram um manual de bolso de como dar corpo a samples de primeira apanha. Seguindo a ordem das músicas, surgem os Faust, uma das minhas bandas de eleição, com este tema a ser retirado das “BBC Sessions +”. Os Faust sempre foram mais que uma das instituições da sonoridade Krautrock, gravando discos que ainda hoje parecem desafiar estruturas e arranjos sonoros. Para além de se terem mantido como um grupo rock, não deixaram de nos inícios dos anos 70 gravarem alguns dos trabalhos mais geniais nas mescla de sons como o Jazz, a música Experimental, a música Progressiva, o Noise e claro a combustão de tudo isto em lume brando a que se deu o nome de Krautrock. Recomendaria sempre começar pelo início, sobretudo por “Faust”(1971) e “So Far”(1972). Quanto a Demdike Stare, já escrevi sobre este projecto aqui no site e incluí-o na minha mixtape para a Amplificasom – electrónica a esfumaçar um ritual hipnotizador. Quanto a Six Organs of Amittance, pela mão do genial Ben Chasny (também dos Comets on Fire, Badgerlore, Rangda etc.), sempre teve a música americana bem cravada nas cordas da guitarra, seja a Folk Psicadélica ou o American Primitivism entre outros territórios, subjugando cada estilo à necessidade da experimentação, da libertação, distorcendo-os em Drones, reescrevendo o passado, sempre acompanhado na missão por outros grupos como os Pelt, Espers ou os Sun City Girls. Quanto ao Neil Young, para além de ser um dos meus heróis de sempre, esta música arrepia, por vibrar nas colunas apenas a voz única de Young e a sua guitarra distorcida numa beleza crua. Termino com duas músicas, uma do Michał Jacaszek, que pode ser comparado ao Machinefabriek, no esculpir de pequenos sons Electro-acústicos – segmentos de cordas e ambientes cinematográficos, e por fim, o grande Mulatu Astatke, aqui com uma música retirada de “Mulatu Steps Ahead” (2010), disco inspirado de música jazz com contornos étnicos (Mulatu é de ascendência Etíope) e de uma espiritualidade sublime. Até para a semana.

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