Pauleatoriedades: Guitar Wolf

Em 1944, Otto Skorzeny, tenente-coronel das SS, tentou, numa operação que ficou designada como Unternehmen Greif, tomar posse das pontes sobre o rio Meuse, equipando os seus soldados com as fardas dos britânicos e americanos capturados e procurando infiltrar-se nas linhas Aliadas. Nos anos cinquenta, a Internationale Lettriste desenvolveu o conceito, mais tarde adoptado pelos Situacionistas, de détournement, isto é, a subversão de um trabalho – por exemplo, um anúncio – de forma a gerar uma obra inteiramente nova e ideologicamente antagónica ao original. Em 1992, os KLF abandonam a indústria musical com uma performance nos Brit Awards de um dos seus grandes êxitos do house – “3 A.M. Eternal” – em modo grindcore, acompanhados pelos Extreme Noise Terror, acabando a disparar cartuchos vazios sobre a multidão com uma metralhadora e deixando uma ovelha morta à entrada de um dos locais do after-party. Em 2012, Paulo Cecílio é convidado para escrever durante dois meses no blog da Amplificasom, numa rubrica onde o objectivo é convencer a conhecida promotora a trazer a terras lusas bandas fantásticas que por cá nunca passaram. Bem, pelo menos, é esse o objectivo deste primeiro post. Para os restantes ainda não decidi. Adiante: tragam cá os Guitar Wolf, por amor da Santa.

Ao vivo em Nashville. TRAGAM-NOS CÁ

E quem são os Guitar Wolf? São a melhor banda punk dos últimos vinte anos, excluindo naturalmente os Aus-Rotten, ou os Propagandhi, ou até mesmo os Reatards, mas não pondo de parte os Black Lips, que, apesar de serem tolerados por quem escreve deste lado, são igualmente considerados insossos quando comparados com as demais coisas que se ouviram com origem punk e neste período de tempo. Os Guitar Wolf são um trio japonês – pois claro – que coloca uma ênfase enorme no feedback – logo aqui ganham pontos – e que têm como uma das suas principais influências a MILF suprema que é Joan Jett – que também cá deveria vir, para actuar não num palco, mas na minha cama. Podendo. Ao longo dos seus vinte e cinco anos de carreira (cumprem-nos este ano: É TRAZÊ-LOS CÁ) deram ao mundo uma série de excelentes discos do mais sujo rock n’ roll, ou, como eles próprios dizem, LOCK N’ LOLL. Como os grandes discos punk, a técnica é aqui enviada para um local místico a que vulgarmente se chama Santa C*** do Assobio e o barulho, a neurose total que é provocada por três acordes, o lado humorístico presente na violência e a rebeldia rockabilly entram nos corpos destes parentes afastados dos Ramones – têm nomes, claro, mas preferem que os tratem por Guitar Wolf, Bass Wolf e Drum Wolf – e dão origem a manifestos do ruído como Jet Generation, álbum de 1999 que é ao mesmo tempo a porta de entrada para o mundo dos Lobos e o melhor dos seus onze discos (a Matador, que o editou, agraciou-o com o majestoso título de loudest album ever recorded).

Isto é a capa mais fixe que vocês vão ver hoje

E porquê Jet Generation e não qualquer um dos outros? A resposta é simples: primeiro, porque o álbum abre logo com uma faixa homónima, que começa num curto silvo de feedback de forma a soar a um avião prestes a descolar, e que é uma espécie de condensação em três minutos do meme Guitar Wolf (Joan Jett, LOCK N’ LOLL LICENSE gritado ali no meio, garage punk para o headbanging caseiro ou, havendo a possibilidade, num espaço tão escuro e fétido como os seus blusões de cabedal); segundo, porque é, entre os seus álbuns, aquele melhor gravado e produzido – se eu me tivesse debruçado, por exemplo, sobre Wolf Rock!, o primeiro LP, de certeza que os leitores que não conhecem os Wolf e tomarão a decisão sensata de ir à procura de toda a sua discografia me viriam depois reclamar pelo facto de que o álbum soa mal como a merda, e eu lá teria de responder que lógico, foi gravado na arrecadação do guitarrista, e depois por qualquer motivo alguém traria à baila as Pega Monstro e eu ficaria cego de raiva para com os haters – mesmo que essa produção não resulte em melodias bonitas e perceptíveis (não, essas não interessam puto quando se fala nos Lobos); terceiro, porque é um manancial de pujança rock – “Jet Generation”, “Kung Fu Ramone”, e, até, uma bonita, e por bonita quero dizer asquerosa, e por asquerosa quero dizer um espectáculo, versão de “Summertime Blues”; quarto, porque a capa tem um incrível potencial icónico, e vivemos numa época de ícones; quinto, porque é um dos meus discos preferidos de sempre, porque foi um dos que fez – para o bem e para o mal – que o black metal deixasse de ser a minha vida, e porque não me apetece estar para aqui a dissertar sobre os outros dez álbuns do trio, porque sou preguiçoso.

Até hoje nunca conheci ninguém que vivesse em Portugal e que conhecesse os Guitar Wolf. De qualquer maneira não me dou com muitas pessoas, que é basicamente a razão principal para escrever coisas parvas na Internet. Julgo, espero, PRECISO que existam mais fãs dos Guitar Wolf para poder alimentar a esperança de que, um dia, vou poder assistir, prefencialmente em Lisboa, à passagem da matilha por cá. Até lá, terei de me contentar com os discos, com os vídeos no Youtube, com a sensação de que vou ter de provavelmente arranjar fundos monetários suficientes para os poder ir ver na sua próxima passagem por Espanha. Mas fica aqui o repto, a minha própria Unternehmen Greif, tentativa de détournement, ovelha morta. LOCK N’ LOLL

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