Pauleatoriedades: Les Rallizes Dénudés

Gosto muito do Japão. Não só porque enfardo mangas que nem um doido, mas também porque, no que toca ao rock, e ignorando esse género execrável que dá pelo nome de visual kei, os japoneses ainda não perderam o espírito kamikaze da Segunda Grande Guerra: no que toca às guitarras, tudo é permitido, e quanto mais barulhento, melhor. É isso que faz dos Boredoms – e, por arrasto, fez dos Hanatarash – uma excelente banda. Foi isso que fez com que Julian Cope se dedicasse a escrever um livro fantástico sobre o psicadelismo nipónico. Foi isso que me levou a escrever sobre Guitar Wolf no meu primeiro texto para a Amplificasom. E, sobretudo, é isso que faz/fez dos Rallizes Dénudés a segunda melhor banda de sempre, atrás dos Mão Morta (nalguma coisa haveremos de ser patriotas).

Porque as palavras nos falham no que toca aos Rallizes, e como uma homenagem aos próprios, reescreve-se o que se disse há uns tempos sobre a banda. Exagero, falsa ironia, opiniões contrárias? Que se f**** todos. Basta ouvir um único disco dos Rallizes – até porque eles só têm um punhado de canções, escritas e reescritas ad infinitum num número infindável de bootlegs, visto que eram demasiado selvagens para que alguém se atrevesse a enfiá-los num estúdio – para perceber que há certos epítetos que se adequam na perfeição. Especialmente para quem procura no fuzz a salvação que não encontra nas religiões abraâmicas. Os Rallizes não são a banda mais crua, nem a mais psicadélica, mas têm feedback capaz de fazer corar Lou Reed e uma quota suficiente de ruído para que, se os Manowar os vissem, se dedicassem antes ao tricô. Tudo o que se fez na cena punk, todo o espírito DIY, todo o activismo político universitário de ’68, todos os cocktails molotov desperdiçados, todas as revoltas de algum ponto no tempo são brincadeiras de criança quando comparadas com isto: o baixista sequestrou um avião e desertou para a Coreia do Norte. PARA A COREIA DO NORTE. Quão mentalmente instável, quão rock n’ roll deve um tipo ser para atingir este nível?

http://www.youtube.com/watch?v=di9JZ_JTCc0

Quantas descrições se adequam tão bem a uma banda como esta: Heavier Than a Death in the Family? Ao saber que, durante quase trinta anos, os Rallizes andaram a incendiar universidades ou quaisquer outros sítios onde os deixassem tocar, sem nunca terem editado um álbum per se, e depois desaparecem misteriosamente como fantasmas – a última vez que se ouviu falar de Takashi Mizutani, o líder absoluto da banda, foi quando participou como guitarrista convidado num concerto-tornado-álbum de Arthur Doyle, Live in Japan 1997 -, em que haveremos de pensar? No hardcore, na no wave, nos Mainliner e nos Zeni Geva? Bem, certamente que ajuda, mas não elimina o bichinho. Isso só uma audição em loop de “The Night Collectors” consegue, e mesmo assim a custo. Porque é a melhor faixa dos Rallizes, porque foi a primeira que ouvi deles – Anthology of Noise and Electronic Music, volume 4, saquem ou morram -, porque foi a banda-sonora de uma caminhada de três horas, no Algarve, de madrugada, após um concerto incrível dos My Bloody Valentine. Ou então podemos ir todos curtir o sample em Dirty Beaches. Whatever rocks your boat. Mas os Rallizes são os Rallizes, caralho, e não cederem à tentação do regresso só os torna num mito maior. Tá tudo dito.

Comentários

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  1. André

    Grandes! Os Les Rallizes Dénudés e o Cecílio por escrever sobre eles. Adoro! Mas depois lembro-me que existiram uns tipos chamados Fushitsusha e um discaço chamado “Live 2”.

  2. Pedro

    Só conheço o ’77 Live. Cada audição é uma autêntica massagem ao cérebro, não há guitarra mais dilacerante que a do Mizutani. E depois passo um dia inteiro a trautear as basslines.

    (Ainda não consegui sair do primeiro Live – de tão bom que é – mas hei-de chegar aí, André. E já que se falou de Mainliner, há que dizer: o Mellow Out abusa demasiado.)