Pauleatoriedades: Thievery Corporation

Hoje vou escrever sobre o meu disco favorito de sempre.

«Uau, Paulo! Qual é? Aposto que é qualquer um dos Mão Morta. Não, será alguma cena noise que só tu ouças? Ou um daqueles genéricos indie pelo qual te tenhas apaixonado pelos últimos tempos? É de electrónica com credibilidade, tipo Aphex Twin? É algum dos Doors ou dos U2, que era o que ouvias quando tinhas 13 anos? É de Black Metal? Conta-nos tudo, estamos curiosos!»

Errado para todos. O meu disco favorito de sempre, e o qual defenderei até à morte, é o Cosmic Game dos Thievery Corporation.

«Espera lá, QUÊ?»

Sim, eu percebo o espanto. Como é que é possível que um tipo tenha ouvido discos históricos como os dos Stooges, ou o Loveless, ou o Ladies And Gentlemen… de Spiritualized, ou ambos dos Joy Division, tudo do Richard D. James, bootlegs de Rallizes e os quatro principais dos Smiths em vinil e ainda assim ache que os Thievery Corporation produziram o melhor álbum de sempre? É irrealista. Talvez uma afronta. Claro que, como muita gente que defende os seus gostos, eu não quero saber: o Cosmic Game é e será sempre o meu disco favorito.

As razões para que assim seja são na verdade bastante simples: o disco é excelente do princípio ao fim. Há muitos assim, verdade, mas este é especial. A primeira vez que o ouvi estava na ressaca no metal e procurava novos sons. O Cosmic Game abriu a porta para a maior parte deles. Qualquer pessoa mais ligada aos meandros da electrónica me dirá que existem milhentos discos do género, e eu ouvi milhentos do género, mas este foi o primeiro e, por isso, tem um estatuto maior. Deu-me a conhecer o dub, o bom hip-hop, fez-me gostar de samba e bossa nova, impulsionou uma caminhada longa pelo psicadelismo e até mostrou uma perninha do que poderia ser o início de uma bonita relação com o jazz. Além disso, foi aqui que ouvi pela primeira vez dois dos grandes: Wayne Coyne e David Byrne, homens por detrás de dois discos que igualmente adoro: Yoshimi Battles The Pink Robots e Remain In Light. Quando o ouvi pela primeira vez foi instantâneo; uma lufada de oxigénio em pulmões cancerosos do metal. Durante o verão de 2006 acompanhou-me quase todas as noites e madrugadas fora na busca de sossego. Enche-se de boas canções: “Warning Shots”, “Revolution Solution”, “The Heart’s A Lonely Hunter”, “Amerimacka”… E, acima de tudo, nunca me canso a ouvi-lo («Mas isso é porque o disco é chato e não incomoda ninguém», sim, ok, mas vocês percebem onde quero chegar).

Pese embora o facto de que nos tempos recentes os Thievery não tenham consigo gerar algo tão delicioso como este disco – Radio Retaliation e Culture Of Fear têm os seus méritos mas nada que se compare -, continuo a achá-los uma das bandas mais importantes da última década, no que à música electrónica diz respeito e não só. Vi-os por duas vezes, tendo ido de propósito a Paredes de Coura em 2008 para um concerto fantástico onde obtive a minha primeira setlist de sempre em modo fanboy, e no Alive do ano passado, onde, mesmo sem um dos membros, foram igualmente bons. Sempre que estou em modo não, é um disco que me eleva a moral. Como diz uma bela e conhecida rádio: música para respirar. Bem, eu sou asmático, daí que o ache genial e precise tanto dele de vez em quando. Por isso aceito de bom grado a perda de pontos na minha cred. Nem isso; na realidade não quero saber. Como o comprova a foto de baixo. Spot the retard.

SPOT THE RETARD

Comentários

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  1. Tiago Esteves

    Grande texto. A minha história com os TC é engraçada. Há uns 10 anos, andava eu no secundário completamente embrenhado na cena do metal e como qualquer amor inicial, não pegava em nd que fugisse ao barulho. Um dia um amigo meu, diz-me “há hoje vou ver um concerto de TC ao CCB”…não fazia puto quem eram os gajos e na altura nc lhes peguei.

    Uns anos mais tarde, ouvi este disco e lembrei-me de na altura ter gozado com o meu amigo por ouvir uma banda de estilos que me causavam arrepios.

    Porra em 2006 qd ouvi este disco nem queria acreditar na minha burrice…que grande álbum…este álbum é um descanso…fdx é perfeito…

  2. Joao

    São um marco na música… toda a fanboy-zice é mais que aceitável :P muito bom artigo :)