Saiu para Comprar Cigarros e Nunca Mais Fumou: Colar de inox

 

 

Descobri a casa de Gardénia perto da igreja e paredes-meias com o cemitério da aldeia. Um pequeno muro branco (não era tão pequeno assim, o terreno onde vivia era alto e tinha forma de um nariz gordo que desembocava metros acima e muito perto de alguns jazigos) contrastava com a roupa preta que vestia. Quando me aproximei o suficiente para reconhecê-la, Gardénia segurava um galináceo pela cabeça – tinha sido estrategicamente enfiada num tubo de inox e deixando centímetros de pescoço disponíveis para que a faca o cortasse e recheasse de sangue um alguidar seco no chão.

Pela força da circunstância ambas estavam hipnotizadas. Só quando entrei no seu campo de visão pousou a faca e largou a galinha (que rapidamente se recompôs correndo e sacudindo o colar de inox preso no pescço). Antes de me abraçar, o inconfundível sorriso que sempre rivalizara com os seus belos olhos azuis pela minha atenção. O abraço mantinha-se também igual, uma anémona (braços longos e peitos leiteiros) que sugava a presa e a devolvia ao chão segundos depois, anestesiada e sem ar.

Foi por alturas da preparação do seu casamento que deixou a cozinha do restaurante barato onde a conheci. Com a comida já nas mesas, passeava pela sala e falava com os últimos clientes, raramente sobre a comida e quase sempre sobre o que pensava fazer no futuro. Foi numa dessas conversas que soube que ia regressar à aldeia, para casar. Tinha-se apaixonado por um primo com “aftershave menta irresistível”, como me dizia. Soube por amigos que o casamento não tinha começado bem, o seu marido convertera-se ao alcoolismo, os dois filhos nascidos eram multideficientes profundos e viviam pregados à cama.

Fomos entrando para a cozinha à medida que perguntava por mais clientes do restaurante – que nomeava pelos pratos de que gostavam, “Domingos do cozido”, “Miguel dos grelos”, etc.. – e me oferecia tudo o que havia para comer.

Ouvi muito mais do que o que falei, até porque a vida dela tinha mudado muito mais do que a minha.

– O Zé já não bebe. Foi difícil tirá-lo. Mas ou era o álcool ou nós. Anda aqui, vou-te mostrar o meu filho.

Subindo as escadas ouviam-se gemidos que se tornavam cada vez mais claros. Gardénia respondia: “ já vou amor, já vou”. Quando entramos no quarto havia duas camas, uma vazia e outra com o Marçal deitado, paraplégico e com uma sonda colada para alimentação. Apresentou-me o filho. Tentei sorrir pasmado a vê-la explicar-me carinhosamente todos os procedimentos para conseguir dar-lhe de comer através daquela máquina. Aproximou-se da janela e disse:

– O Pedro tá ali no cemitério naquela campa, aquela com uma cruz em pau, vês (apontando com o dedo)? Daqui do quarto consigo ver os dois. Não é Marçal?

(Não sei quanto tempo passou) Um nó apertou-me a garganta e a campainha tocou. Ao quarto chegou, de leve, um cheiro a aftershave de menta. Era o marido. Apresentámo-nos, cumprimentou os dois filhos e a mulher e desceu. Seguimo-lo. Aproveitei a ocasião para me despedir e prometi voltar para o convite de cabidela. Já perto do carro, a caricata galinha de colar de inox atravessou-se no caminho e o nó na garganta afrouxou.

 

 

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