Saiu para comprar cigarros e nunca mais fumou: Old Ideas – Leonard Cohen

 

Aos 77 anos, Leonard Cohen conta com frontalidade o seu trajecto pacífico em direcção à morte e sem necessidade de grandes exercícios de imaginação para quem o escuta. As letras ouvem-se com pés assentes na terra. Old Ideas é o que já se conhece de Cohen: sexo, Deus, fé, desejo, perdão, e mais uns quantos elementos que convivem para tornar possível suportar a dor enquanto ainda se respira. Depois parece ser mais fácil, como se pode ouvir em “Going Home”: “I´m going home without my sorrow/going home sometime tomorrow/going home to where it’s better than before”.

“Going Home” abre o disco com violinos anunciando o que parece ser Deus e o seu primeiro julgamento a este “ … lazy bastard living in a suit”. A partir daqui, começando com “Amen, é Cohen quem se explica e quase sempre falando (são poucas as vezes em que realmente canta). A voz cada vez mais rouca e grave desde que decidiu parar de fumar há uns anos e que repete “tell me again we’re alone and i’m listening/listening so loud that it hurts/tell me again when i’m clean and i’m sober” traz à tona as velhas ideias de que sempre se ocupou, “old unresolved moral questions”. “Show Me The Place”, ”Darkness”, “Anyhow”, “Crazy To Love You” e  “Come Healing” representam por isso mesmo, uma tentativa de redempção que a idade e um longo retiro lhe impuseram. As letras tornaram-se por isso mais filosóficas, “more distant from the beating pulse.”

Os arranjos musicais mantêm-se clássicos e à sua maneira, blues – ainda que mais acústicos do que no seu último Dear Heather – predominando um sintetizador, violino, trompete e uma bateria jazzy. Há, contudo, em relação a discos anteriores, uma intensidade emocional com marca musical, ou seja, já não é só Cohen e os coros quem briga pelas lágrimas, trompete e violino estão agora também mais poderosos.

Se Cohen não lançasse mais nenhum álbum, este poderia ser o disco de final de carreira perfeito, Old Ideas não só resume genialmente as intenções do seu trabalho, como acrescenta dados novos ao seu trajecto, continua a crescer e cada vez mais perto de Deus. Sorte dele. Azar nosso.

Enquanto cá estiver Mr. Cohen, faça o favor de se continuar a despedir desta forma que a gente agradece. Eternamente.

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