Seitan e Muslimgauze

Há uns tempos fui a Marraquexe e gostei muito. Tirando o calor abrasador (para mim, pelo menos) e o uso desmesurado de burros como meio de transporte de tudo – pessoas, mercadorias, materiais de construção, etc – senti-me bem por lá.


Existe alguma familiaridade cultural, pelo menos para um alfacinha como eu, e quando via alguém a amanhar sardinhas ou a assar pimentos na rua, rapidamente me via nos famigerados santos populares lá do burgo que me viu nascer. Isso e as azeitonas, os coentros e a menta; os zillege dos tipos que tanto se parecem com os azulejos (e a demais faiança por sinal) dos alentejanos e não só. 

E os nativos, quero dizer… tirando a roupa, podia muito bem ser Lisboa, mas com muitas mesquitas e minaretes.

Boa malha…

Sendo veggie, comer é sempre um pouco mais complicado quando não se está em casa; verdade seja dita, não há grande variedade na alimentação vegetariana marroquina. Há tagines de legumes, couscous com legumes ou eventualmente, os ditos legumes mas crús – isso resulta sempre. 


Uma honrosa excepção seja feita para a sopa Harira, que normalmente se serve no Ramadão para quebrar o jejum, embora também se prepare noutras ocasiões. Como por exemplo, quando o hóspede do Riad decide jantar por lá e pede uma Tagine de legumes, mas as senhoras entendem que é pouca comida e que o melhor será fazer mais uma sopa.

É uma sopa muito boa mesmo. Tipo canja em melhor e sem animais. Tem uma receita muito dinâmica que dá para (quase) todos os gostos.

– lentilhas
– arroz
– grão/ervilhas (opcional)
– ovos (opcional)
– especiarias (açafrão, pimenta, cominhos)
– ervas aromáticas (salsa, coentros)
– azeite



Não vamos usar doses ok? vamos usar rácios, depois ajustem à vossa medida.

Tendo posto a musiquinha a bombar, preparamos um tacho com um pouco de cebola cortada grosseiramente, um ou dois dentes de alho, azeite e fazemos um refogado ao qual adicionamos as lentilhas secas (pelo menos um copo por pessoa). Refoga-se um pouco as lentilhas.

Adiciona-se água, oito vezes a quantidade de lentilhas e o arroz – que deve ser sensivelmente metade da quantidade de lentilhas.

Depois vai-se buscar um álbum que tenha pelo menos 30 minutos, talvez uns 40 e põe-se a rodar.


Pode ser um álbum do Omar Khorshid – apesar de egípcio, o mood é o adequado.

Entretanto a sopa vai ficar a cozer, só lá para o meio é que se adiciona o grão pré-cozido (a mesma quantidade que o arroz). As especiarias e as ervas vão no fim. Eu sou vegan por isso não adiciono ovos.

E como um vegan não vive só de sopa, preparamos o prato principal enquanto bombamos com o Omar.

Fatia-se seitan, quanto baste para alimentar os convivas e reserva-se.

Numa taça espremem-se umas tantas laranjas e adiciona-se 1/4 do total em azeite.
Adicionam-se igualmente dois alhos picados finamente, uma cl chá de açafrão, uma cl chá de cominhos, uma cl chá de pimenta rosa (ou preta, ou cayenne mas metade), uma cl chá de pimentão, uma cl chá de gengibre (opcional) e uma cl chá de coentros frescos picados.

Esta marinada deve cobrir a totalidade das fatias de seitan e assim ficar até acabar de tocar o álbum ou a Harira estar cozinhada.

Depois serve-se a sopinha, de preferência com um pouco de coentros picados ou uma rodela de limão (como os algerianos).

Entretanto mete-se a rodar o Hand of Fatima de Muslimgauze e vai-se buscar uma frigideira na qual cozinharemos o seitan em lume forte.



Colocam-se algumas fatias de seitan na frigideira e cobre-se com um pouco da marinada. É suposto tostar um bocado de cada lado, por essa altura, se tudo tiver corrido bem, a marinada ficou bastante reduzida (tendo os meus amigos conseguido realizar a não surpreendentemente chamada “redução”) e ligeiramente mais espessa; podem servi-la por cima das fatias de seitan, ou não, como vos aprouver.
Chama-se Seitan Essaouira e é uma adaptação minha de uma receita de uma senhora norte-americana.

Acompanhem com o que vos apetecer, arroz, couscous, salada, legumes salteados, etc.

Também dá para fazer umas sandochas boas e bem nutritivas – será o meu almoço de amanhã antes do Torneio de Equipas de Kendo, provando assim quão nutritivas e adequadas a um estilo de vida combativo e saudável são :)

Comentários

Comentar